

Por Mauro Ribeiro e Douglas Dantas*
Além de ter que pagar a mais para andar no Sistema Transcol (ônibus e aquaviario), o usuário tem custos muito além do anunciado R$0,20 de reajuste nesta sexta-feira. Por determinação do governador, no final de 2024, foi exigida da Ceturb/ES a redução dos custos do subsídio. Para não prejudicar o lucro dos empresários, foi decidido reduzir em 10% as viagens nas linhas do Sistema Transcol. Essa mudança resultou em uma queda significativa na qualidade do serviço prestado, além de superlotação e maiores intervalos entre os ônibus. Ou seja, não são apenas R$0,20, mas muito além.
Os novos valores passam a ser válidos a partir de domingo, 12 de janeiro, sendo R$4,90 de segunda à sábado; R$4,30 aos domingos e R$ 2,45 para o Bike GV.
Só em subsídios, foram gastos mensalmente em torno de R$ 32 milhões em 2024, valor inclusive bem superior à média mensal de 2023, que era em torno de R$16 milhões, apesar da promessa de economia com a publicação da Lei Complementar n.º 1040/2023 e do Decreto n.º 5406R/2023 que determinaram que o governo remunere os consórcios pelo formato “custo menos receita”.
O anúncio do reajuste na tarifa do Sistema Transcol para R$ 4,90 nesta sexta-feira, 10 de janeiro, reacende o debate sobre a qualidade, acessibilidade e a eficiência do transporte público na Região Metropolitana da Grande Vitória. Ainda que o Espírito Santo ostente a menor tarifa das capitais do Sudeste, a realidade vivida pelos usuários aponta para um sistema que precisa urgentemente ir além dos reajustes anuais e promessas de renovação da frota.
A falta de transparência e de diálogo com a sociedade na revisão da tarifa e na fiscalização dos contratos também gera muitas críticas. Conselheiros destacam a carência de dados claros e acessíveis que permitam uma real fiscalização das empresas, seus lucros e obrigações. Essas informações deveriam estar totalmente disponíveis e organizadas de forma acessível no portal de transparência do governo estadual. Isso inclui valores do custo por passageiro, quilometragem rodada, quantidade e alterações na frota, entre outros detalhes importantes, considerando que TODO o sistema é financiado pelo contribuinte.
O aumento e seus impactos
Com o reajuste de 4,26%, a tarifa do Transcol continuará absorvendo parte significativa do salário mínimo, representando cerca de 16% da renda de um trabalhador que utiliza o transporte diariamente. Isso ocorre em um cenário onde o custo do sistema é altamente subsidiado pelo governo estadual. A questão que surge é: para quem realmente esse sistema está funcionando?
A fórmula que define a tarifa inclui insumos como inflação e custos operacionais, mas não reflete a realidade enfrentada por passageiros que convivem diariamente com atrasos, superlotação e ônibus sem ar-condicionado, especialmente em horários de pico. Apesar dos avanços, como os veículos climatizados e o aumento de ônibus elétricos, a percepção geral dos usuários é que ainda há uma enorme lacuna entre as melhorias prometidas e a experiência cotidiana.
Mobilidade urbana e o futuro do transporte público
Melhorar o transporte público não é apenas uma questão de ajustar tarifas ou renovar parte da frota. É um investimento estratégico que reduz o uso de veículos particulares, melhora a qualidade do ar e transforma a mobilidade urbana. No entanto, iniciativas como o sistema aquaviário e a ciclovia da vida, embora inovadoras, atendem a uma parcela limitada da população. Enquanto isso, bairros periféricos continuam com alta demanda sem melhorias efetivas no atendimento.
Subsídios e o modelo de gestão
O modelo atual, onde o governo arca com boa parte do custo do sistema, também merece uma análise crítica. Com subsídios cobrindo despesas como terminais, financiamento de veículos e parte da operação, o lucro do sistema de transporte permanece nas mãos da iniciativa privada. Nesse contexto, questiona-se: a estatização do sistema poderia reduzir custos e priorizar a qualidade do serviço?
Além disso, há um desequilíbrio evidente na distribuição dos custos. Enquanto a população paga uma tarifa que compromete sua renda, o governo complementa a operação com altos subsídios, sem que isso resulte em um serviço proporcionalmente eficiente. É urgente revisar o modelo, priorizando o interesse público e garantindo que os investimentos tragam retornos concretos para a população.
Transporte público como um direito
Transporte público não é apenas um serviço; é um direito fundamental que impacta diretamente a qualidade de vida, o acesso ao trabalho, à educação e à saúde. O aumento de tarifas sem melhorias significativas no serviço é um retrocesso em uma sociedade que deveria tratar a mobilidade como prioridade.
Portanto, mais do que discutir tarifas, é preciso cobrar um sistema de transporte público que realmente atenda às demandas dos usuários, seja pontual, acessível e de qualidade. Só assim poderemos transformar a mobilidade urbana da Grande Vitória em um modelo inclusivo e sustentável.
Redução de viagens
Buscamos o governo, por meio da Semobi e Ceturb, para saber se há previsão de retorno dos 10% das viagens suprimidas. Até a publicação desta reportagem, não havia retorno. O espaço segue aberto.
*Vice-presidente do Sindipúblicos, empregado da Ceturb. Jornalista do Sindipúblicos, diretor da Fenaj e do Sindijornalistas/ES.