

Quinta-feira é dia de lembranças, nas redes sociais, dos famosos #TBT*. Hoje, relembramos a trajetória de luta de Padre Gabriel Felix Roger Maire, assassinado há 35 anos. Em sua memória e homenagem, será realizado um ato e celebração nesta quinta-feira (23) às 19h, em Cobi de Cima, Vila Velha, onde seu corpo foi encontrado e onde hoje se encontra a Praça dos Mártires. A celebração seria realizada em 23 de dezembro, dia exato de seu assassinato, mas foi adiada devido às fortes chuvas.
Padre Gabriel foi brutalmente assassinado no areal de Vale Encantado, em Vila Velha. Seu corpo foi deixado na Avenida Carlos Lindemberg, em Cobilândia, para criar uma narrativa de latrocínio. Embora o crime não tenha sido devidamente apurado pela Justiça e tenha prescrito, a memória de Padre Gabriel permanece viva entre aqueles que o conheceram e admiram sua história.
A celebração é organizada pelo grupo Ecos de Gaby, que ao longo dos últimos 35 anos tem realizado diversas atividades para preservar a memória do sacerdote. Entre essas atividades estão a ação celebrativa anual e a publicação de livros como “Prefiro morrer pela vida do que viver pela morte”, com depoimentos de pessoas que conviveram com Padre Gabriel, e “Ecos de Vitória”, que reúne cartas escritas pelo sacerdote para amigos e familiares na França.
Vida e Legado de Padre Gabriel
Padre Gabriel chegou ao Brasil em 1980 e teve uma atuação marcante no Espírito Santo, principalmente em Cariacica. Ele participou ativamente das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs) da Igreja Católica e incentivou a organização popular. Foi um dos impulsionadores da criação de movimentos de mulheres, culminando na atual Associação de Mulheres de Cariacica Buscando Libertação (Amucabuli). Também desempenhou um papel essencial nos movimentos de moradia e na Juventude Operária Católica (JOC).
Atuação
Padre Gabriel contribuiu com a formação sócio-político-religiosa dos moradores de vários bairros de Cariacica e Viana; distinguiu-se pela proximidade e defesa dos injustiçados e dos mais necessitados, sempre enfrentando com destemor desafios e ameaças do crime organizado, que acabaram custando a vida.
Entre os movimentos dos quais participou, destaca-se o “PAZ E DEMOCRACIA EM CARIACICA, respeitem o voto do povo”, já lutando pelas garantias constitucionais e participação popular, isto em pleno período de fim da ditadura militar que ainda estava viva e repressora a quem ousasse questionar. Uma de suas frases que marca este testemunho é: “Prefiro morrer pela vida do que viver pela morte!”
Luta Operária
Na Pastoral Operária, coordenou o jornal “Ferramenta”, feito por operários para operários, que buscava informar os trabalhadores sobre lutas populares e promover a educação para a cidadania. Sua atuação foi crucial para a conscientização dos trabalhadores e a luta por melhores condições de trabalho.
Renata Setúbal, presidenta do Sindipúblicos, destacou a importância de lembrar o legado de Padre Gabriel: “Celebrar a sua memória é reconhecer a sua luta incansável por justiça social e melhores condições de trabalho. Seu trabalho no jornal Ferramenta foi fundamental para conscientizar e mobilizar os trabalhadores. Precisamos manter vivo esse legado de coragem e dedicação. E com esse exemplo, seguir na luta pelos trabalhadores, servidores e toda sociedade, conscientizando e defendendo políticas públicas justas e igualitárias”.
Prescrição
Pedro Valls Feu Rosa lamentou ter sido o desembargador responsável por relatar o voto e proferir a prescrição do crime, deixando assim os assassinos impunes. Segundo o desembargador, o crime teria sido motivado pelas denúncias de Padre Gabriel ao crime organizado, que à época estava entranhado na comunidade de Cariacica. Em sentença, Feu Rosa pede perdão à França e ao mártir:
“Quanto a mim, enquanto juiz, ao desempenhar o triste papel de abandonar pelo caminho de minha toga o cadáver insepulto que é este processo, somente resta, uma vez mais, pedir desculpas – particularmente no meu caso, amargas desculpas.
Excusez-moi, France, parce que la mort de votre fils Gabriel reste impunie. Excusez-moi, Église Catholique en France, parce que notre omission a fait d’un Père un martyr. Excusez-moi, Père Gabriel – excusez-moi, Père – pour l’absence de justice. Excusez-moi ! (Tradução livre: Desculpe-me, França, porque a morte de seu filho Gabriel continua impune. Desculpe-me, Igreja Católica na França, porque nossa omissão fez de um Padre um mártir. Desculpe-me, Padre Gabriel – desculpe-me, Padre – pela falta de justiça. Desculpe-me!) Fica, assim, decretada a impunidade, digo, a prescrição”.
A memória de Gaby, como carinhosamente Padre Gabriel era conhecido, continuará sendo celebrada e preservada através das ações do grupo Ecos de Gaby e da comunidade que ele tanto inspirou. “Que sua força e determinação sirva de exemplos para que continuemos na luta por melhores condições aos nossos companheiros e pela união da classe trabalhadora” finaliza Renata Setúbal.
Leia aqui o voto do Desembargador Feu Rosa.
* TBT é um acrônimo para Throwback Thursday, que pode ser traduzido livremente como a Quinta-feira das Lembranças.