

O ano inicia com o Janeiro Branco, mês dedicado a ampliar a visibilidade sobre a saúde mental na sociedade.
Para abordar o tema, nossa equipe entrevistou servidores públicos que atuam pelo SUS com foco na saúde mental: o assistente social Hudson Vassoler e a psicóloga e militante do Núcleo Estadual da Luta Antimanicomial Camila Mariani Silva.
Para prevenir o adoecimento, é fundamental a garantia dos mais diversos direitos. “Saúde mental é uma epidemia que a gente está vivendo. Não tem janeiro branco, não tem setembro amarelo, a gente tem que falar de saúde mental o ano todo. Para termos saúde, consequentemente, saúde mental, nossos direitos precisam estar assegurados”, analisa Hudson.
O assistente social ainda lembra que a Lei do SUS, conceitua saúde de forma ampliada, vinculada aos direitos de cultura, lazer, alimentação, moradia, renda, emprego. No entanto, o sistema ao negar ou restringir esses direitos à sociedade, faz com que o adoecimento mental aumente.
“Isso tem muitas consequências, principalmente da forma que o governo federal anterior, tratou a pandemia. A ciência comprova que a ansiedade aumenta após pandemias. O desastre que a gente teve de acompanhamento da saúde mental no nosso país fez com que a ansiedade fosse o grande boom. Ansiedade, tristeza, depressão, mas a ansiedade fez a nossa sociedade mudar” avalia Hudson.
Questionados sobre as principais patologias atuais, destacaram a ansiedade, com o Brasil considerado o país mais ansioso do mundo.

“Cresce o número, e muito, de adolescentes com ansiedade, em depressão que pensam ou tentam suicídio. Esse número tem nos alarmado bastante e isso está relacionado às nossas condições de vida. A gente tem visto o número crescente também de pessoas com diagnóstico de autismo, significa que antes não tinha? Não, antes também tinha. Mas como as pessoas lidavam com isso? E hoje o que se busca?” comenta Camila.
Para prevenção, a psicóloga destaca que “precisamos ter tempo para cuidar da gente, do que está passando, do que estamos vivendo, sentindo. Precisamos ter esse tempo. Entender, enquanto sociedade, que não há uma vida só de felicidades. As adversidades fazem parte dela e a gente se fortalece com elas também” avalia a psicóloga.
Entre os sintomas que demandam atenção para buscar ajuda profissional, os profissionais destacam a mudança de rotina. “Quando a gente começa a perceber que tá dormindo mal, que o uso de bebida alcoólica aumentou, o uso de tabaco… Quando você tem a ansiedade por tudo, tudo te estressa, te deixa nervoso. Deve-se buscar as unidades básicas de saúde, que são a porta de entrada para o tratamento” alerta Hudson.
“Quando a gente não consegue estar atento às coisas ou não consegue fechar um ciclo de pensamento, o pensamento nos invade, a gente pensa várias coisas, a gente não consegue organizar o pensamento, as ideias, são coisas indicativas de que alguma coisa não está muito legal” complementa Camila.
Já em caso de um transtorno mental grave, um surto psicótico, um surto depressivo grave, uma tentativa de suicídio, a orientação é buscar o serviço de emergência, como o SAMU.
Ambiente de Trabalho
Camila chama atenção para a redução de equipes, que sobrecarrega os demais profissionais, gerando muitas vezes problemas de saúde mental. “Por que o corte de gastos, o lucro é tão mais importante que a vida de um profissional? Um profissional adoecido não trabalha bem. Aí ele é demitido? Ele sofre em relação a isso? A empresa, o Estado, também perde. Vivemos uma cobrança muito grande, muitos medos, ameaças. As condições de trabalho, sem formalização, sem garantias, o governo tem alimentado isso também com as terceirizações, DT’s, sem garantir as estabilidades. Então, o cuidar das pessoas, se perde devido à rotatividade de profissionais, servidores. Isso tudo traz prejuízos à saúde mental dos profissionais e dos pacientes”.

Hudson ainda destaca que é fundamental que o ambiente de trabalho, inclusive no serviço público, seja respeitoso, com negociação coletiva, respeito aos direitos, com valorização salarial, reajustes. “Assédio moral é crime e causa doenças terríveis, como a síndrome de Burnout, aumenta a ansiedade. Os governos precisam instruir os gestores para respeitarem os servidores.”
Melhorias
Outro fator levantado é a necessidade do Estado investir e melhorar a rede de assistência à saúde mental. “Nosso estado e todas as prefeituras não possuem o mínimo de profissionais. A gente ainda tem um grande agravante no Espírito Santo, onde se investe muito em comunidades terapêuticas, reconhecido como espaços de violações de direitos em detrimento à saúde pública.”
Camila reforça que o Estado e municípios não investem na saúde mental. “Deve ter um CAPS para transtornos mentais graves e um CAPS para álcool e drogas em municípios acima de 70 mil habitantes. Acima de 150 mil habitantes, teria que ser pelo menos um CAPS infanto-juvenil, um CAPS álcool e drogas e um CAPS para transtornos mentais adultos. A maioria dos municípios no ES não cumprem”.
Por fim, a psicóloga reflete que precisamos entender que não existe aquele lugar de felicidade. “A gente vai vivendo a vida e fazendo dela, com as nossas relações, momentos mais felizes e menos felizes, ou mais tristes e menos tristes. Então, a gente precisa mostrar que não existe esse lugar que só assim você será feliz. As pessoas precisam perceber as alegrias e as pequenas felicidades que, juntas, somam e nos fazem pessoas felizes”.