

Trabalhadores rurais ocupam há onze dias a Secretaria de Educação (SEDU) tentando o diálogo com o governo Hartung que autoritariamente fechou turmas e escolas no campo e ainda nega a Pedagogia da Alternância, método de ensino utilizado em todo o país em comunidades camponesas.
Na manhã desta sexta-feira, 26 de fevereiro, os manifestantes estiveram na frente do Centro de Convenções para entregar um manifesto (abaixo) ao ministro da Educação, Aloísio Mercadante, que participou do 10º Encontro Estadual de Prefeitos.
Para os trabalhadores rurais, as mudanças tem afetado a vida de centenas de crianças e teria o objetivo de facilitar a entrada de grandes empresas do agronegócio no Estado, ao forçar a ida das crianças e adolescentes para estudar nas cidades negando todas as necessidades específicas da educação no campo.
Durante o manifesto, representantes do MST estiveram reunidos com o ministro da educação que concordou com as demandas reconhecendo a importância de se trabalhar com a Pedagogia da Alternância e se comprometeu em cobrar do governador Hartung um diálogo para resolver a situação.

Mariana Mota, da juventude do MST, do Assentamento Zumbi dos Palmares, São Mateus, comenta que “Não haver tempo na comunidade prejudica o ensino das crianças. É nesse período que elas desenvolvem pesquisas e estudam os elementos da realidade do campo. O governo quer esvaziar o campo para incentivar o agronegócio, que utiliza indiscriminadamente agrotóxicos”.

Maria Aparecida, professora

Samuel e Gislaine
Os alunos que foram afetados também contam o que mudou. “Tá tudo muito difícil. Demoramos mais pra ir pra escola. Não estamos aprendendo mais as ‘coisas’ pra fazer junto com nossos pais no assentamento. Agora é só ler e escrever as coisas, não ensinam mais nada pra gente usar na ‘roça’.” Comentou Samuel, 12 anos e Gislaine, 9 anos.

Aleilda Ouverney, mãe
Outra que tem tido dificuldades com as mudanças é a camponesa Aleilda Ouverney, do assentamento Córrego da Areia, de São Mateus. Mãe de duas crianças ela ressaltou que “Tem sido difícil para explicar para os meus filhos essa mudança. E fico pensando que sem ensinarem à eles como lidar com as coisas do campo, o objetivo é acabar com a agricultura familiar. Como vai ser a produção de alimentos? Na cidade preparam apenas para o mercado”.

Tadeu Guerzet, vice-presidente do Sindipúblicos
O Sindipúblicos apoia a luta dos trabalhadores e acredita que é preciso valorizar e incentivar a agricultura familiar, garantindo educação de qualidade no campo e na cidade. O desprezo do governo Hartung para com a comunidade escolar negando inclusive o diálogo, mostra que o objetivo tem sido apenas entregar o Estado às grandes empresas por meio de questionáveis projetos como o Escola Viva sem atender as demandas da sociedade, mas apenas garantir lucro à financiadores de campanha. Esperamos que o governo garanta a continuidade da Pedagogia da Alternância, bem como restabeleça as turmas e escolas que foram fechadas, além de atender a pauta do movimento.
Aproveitamos para comunicar que os trabalhadores que estão acampados estão necessitando de doação de alimentos e água mineral, que podem ser entregues no Sindipúblicos ou diretamente no acampamento na Sedu.
Segue abaixo o Manifesto entregue ao ministro da Educação.
Pedagogia da Alternância
Usada em áreas rurais para mesclar períodos em regime de internato na escola com outros em casa. Criada em 1935 na França, chegou ao Brasil por meio dos jesuítas no Espírito Santo em 1969 se espalhando por mais de 20 estados. A intenção era evitar que os filhos gastassem a maior parte do dia no caminho de ida e volta para a escola ou que tivessem de ser enviados de vez para morar em centros urbanos. Na metodologia, os alunos têm as disciplinas regulares do currículo do Ensino Fundamental e do Médio, além de outras voltadas à agropecuária. Quando retornam para casa, devem desenvolver projetos e aplicar as técnicas que aprenderam em hortas, pomares e criações. Recentemente o Ministério da Educação (MEC) não apenas aceitou a Alternância como também tem incentivado a sua disseminação.
A autora do livro A Educação Rural no Brasil, Claudia Souza Passador, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), defende o uso em larga escala da Alternância, pois entende que ela valoriza o trabalho no campo. “A maioria das escolas estigmatiza o agricultor. As crianças são levadas a pensar que trabalhar na roça é para quem não tem estudo. Um erro. O conhecimento é útil em todas as áreas. O Brasil, especialmente, precisa de pessoas bem formadas para esse setor porque 80% dos municípios têm uma economia essencialmente rural”, diz.
MANIFESTO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS DO CAMPO E DA CIDADE
Nós, organizações sociais e populares do campo e da cidade, estamos lutando em defesa da educação popular no Espírito Santo. Somos organizações camponesas, sindicais, de mulheres, negros e negras, indígenas, juventude e estudantis em oposição ao descaso do Governo Paulo Hartung com a educação em nosso estado. Por isso, estamos acampados há mais de 15 dias na Secretaria Estadual de Educação.
Objetivando implementar o seu Projeto educacional mercantilizador, o governador dialoga somente com o empresariado capixaba organizado na ONG “ES em Ação” sobre as políticas públicas em nosso estado, negando a participação democrática do povo e dos movimentos sociais organizados. Sua ação na agricultura fortalece o agronegócio e o protege das mazelas e impactos que ele causa no estado, ignorando a grave seca que ocorre desde 2014 e a expulsão do homem e da mulher do campo, incentivando a expansão do plantio de eucalipto e acobertando o crime ambiental causado pela Vale/BHP/Samarco no Rio Doce.
O Plano Estadual de Educação/ES e o Projeto Escola Viva também foram elaborados a portas fechadas, negando o diálogo com a população do campo e da cidade. Daí, vemos um governo que não ouve e não se pronuncia, fecha escolas, turnos e turmas no campo e na cidade, precariza e nega o direito de acesso, permanência e continuidade da Pedagogia da Alternância, Escolas do Campo, Indígenas e Quilombolas, Educação de Jovens, Adultos e Idosos, Educação Infantil e Educação Especial.
PAUTA NACIONAL
• Normatização via Resolução do Conselho Nacional de Educação, da Pedagogia da Alternância em escolas públicas;
• Manutenção e ampliação da Licenciatura em Educação do Campo;
• Publicação de Lei que criminalize o fechamento de escolas do campo, indígenas e quilombolas;
PAUTA ESTADUAL
•• Continuidade do Projeto de Educação das Escolas de Assentamentos;
• Reconhecimento da Proposta Pedagógica de Alternância nas escolas de Assentamentos;
• Aprovação das Diretrizes das Escolas de Assentamentos e Acampamentos;
• Não fechamento de turmas, turnos e escolas do campo e da cidade.
Confira abaixo o teor do Manifesto:
Abaixo-assinados:
Sindipúblicos
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST
Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA
Via Campesina
Central Única dos Trabalhadores – CUT
Levante Popular da Juventude
Consulta Popular
SindiSaúde
Sindilimpe-ES
Sindiupes
Sintec-ES
União Nacional dos Estudantes – UNE
União dos Estudantes Secundaristas do Espírito Santo – UESES
Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Espírito Santo – FETAES
Casa da América Latina
Frente Brasil Popular
Núcleo de Educação de Jovens e Adultos – NEJA
Fórum de Educação de Jovens e Adultos
Comitê de Educação do Campo/ES
Comissão Pastoral da Terra – CPT
Fórum Permanente de Educação Infantil – FOPEIS
Campanha Nacional pelo Direito à Educação
União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação – UNCME
Associação Indígena Tupinikim e Guarani – AITG
Fotos: Douglas Dantas | Fonte: Revista Escola Set/2009 | Entrevistas