

No Dia da Pessoa Idosa, a psicóloga Roberta Caliari, especialista em Gerontologia e diretora da SBGG-ES, fala sobre perdas, aposentadoria, idadismo, solidão e o que a sociedade precisa mudar para que todos possam envelhecer com dignidade
Neste 1º de outubro, Dia Nacional e Internacional da Pessoa Idosa, conversamos com a psicóloga Roberta Caliari, que tem atuação voltada à longevidade e especialização em Gerontologia. Ela integra a diretoria da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia do Espírito Santo (SBGG-ES).
Na entrevista, Roberta propõe uma mudança de olhar: em vez de perguntar como evitar o envelhecimento, perguntar como queremos viver enquanto envelhecemos. Ela fala sobre os pilares do envelhecimento saudável, as perdas e transições dessa fase, a relação entre pais idosos e filhos, o preconceito contra a idade e o papel da sociedade na construção de uma velhice digna. Confira.
Quais são os pilares para um envelhecimento saudável?
Eu gosto de pensar que envelhecer bem não significa simplesmente chegar à velhice sem doenças. Significa poder continuar vivendo uma vida que faça sentido, dentro das possibilidades de cada pessoa.
Quando falamos em envelhecimento ativo, encontramos na Gerontologia um modelo desenvolvido no âmbito da Organização Mundial da Saúde que considera quatro pilares: saúde, aprendizagem ao longo da vida, participação e segurança/proteção.
Saúde não é apenas ausência de doença. Aprendizagem nos lembra que a capacidade de aprender não termina com a idade. Participação significa poder continuar fazendo parte da vida, das relações, da comunidade, da cultura e dos espaços que fazem sentido para aquela pessoa. E segurança envolve ter proteção e condições para viver com dignidade.
Também estamos vivendo a Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030), estabelecida pela ONU e liderada pela OMS. A proposta é mobilizar a sociedade em quatro frentes: combater o idadismo, construir ambientes favoráveis às pessoas idosas, oferecer cuidados integrados e centrados na pessoa e garantir acesso a cuidados de longa duração.
Essa perspectiva nos ajuda a sair da ideia de que envelhecer bem depende apenas daquilo que cada indivíduo faz. Uma pessoa pode estar com boa saúde e, ainda assim, viver em uma cidade que não favorece sua autonomia. Uma calçada irregular pode provocar uma queda. Um semáforo com pouco tempo para atravessar pode fazer com que uma pessoa idosa deixe de circular por determinado lugar. E isso pode modificar a maneira como ela se relaciona com a cidade e com a própria independência.
Então, a pergunta muda: “O que nós, enquanto sociedade, precisamos construir para que as pessoas possam envelhecer bem?” Afinal, se tudo der certo, todos teremos a oportunidade de envelhecer.
O envelhecimento envolve perdas. Como lidar com elas?
O envelhecimento envolve mudanças, e algumas dessas transições podem trazer perdas: de pessoas significativas, de funções, de papéis que ocupávamos, de aspectos do corpo, da dinâmica familiar ou da rotina. Em alguns momentos, também pode surgir maior necessidade de ajuda.
Uma forma de atravessar essas experiências é poder reconhecê-las. Negar não faz com que aquilo deixe de existir. É preciso compreender o que mudou e perguntar: diante dessa nova realidade, o que ainda é possível construir? O que continua fazendo sentido? O que precisa ser reinventado?
Penso especialmente nas mulheres que, ao longo da vida, aprenderam a dizer “sim” para muitas demandas e muitas pessoas. Em determinado momento, podem perceber que querem viver o tempo que têm de outra maneira, e isso pode significar rever relações, limites, prioridades e até aprender a dizer “não”.
A psicologia pode contribuir muito nesse processo. Às vezes precisamos fazer o luto por uma condição que já não existe para reconhecer aquilo que permanece possível. E adaptação não significa se conformar. Significa encontrar novas formas de continuar vivendo, participando e construindo sentido.
Como ressignificar a vida quando chega a aposentadoria e a rotina muda?
A aposentadoria pode ser uma oportunidade, mas também pode representar uma ruptura importante. Para algumas pessoas, o trabalho ocupava grande parte da identidade, da rotina, dos vínculos sociais e do sentimento de utilidade. Então, quando ele termina, não basta dizer: “Agora aproveite a vida”.
É preciso se perguntar: quem sou eu para além do meu trabalho? Que lugares ainda quero ocupar? Com quem quero conviver? O que quero aprender?
Ressignificar não significa necessariamente encontrar uma grande missão. Às vezes significa construir uma rotina que tenha prazer, vínculo, movimento e sentido. A pessoa pode estudar, viajar, participar de grupos, fazer trabalho voluntário, cuidar das relações ou simplesmente descobrir novas formas de estar no mundo.
E talvez uma das coisas mais importantes seja não pensar que existe uma idade certa para deixar de desejar.
Muitas pessoas têm dificuldade de aceitar que envelheceram e que talvez precisem de ajuda. Como trabalhar isso?
Vivemos em uma sociedade que frequentemente associa envelhecimento à incapacidade. Então, reconhecer que precisa de ajuda pode ser vivido como admitir que “não consegue mais”, quando, na realidade, precisar de apoio em determinado momento da vida não diminui ninguém.
O desafio está em preservar a autonomia mesmo quando existe algum grau de dependência. Uma pessoa pode precisar de ajuda para tomar banho e continuar escolhendo sua roupa, o que quer comer, com quem quer estar e onde deseja ir.
E aqui existe uma questão muito importante: às vezes, o controle chega vestido de amor e cuidado. A família pode começar a decidir pela pessoa, restringir atividades ou fazer coisas que ela ainda conseguiria fazer. Tudo isso pode nascer de uma boa intenção, mas acaba retirando espaços de escolha. Ao mesmo tempo, não pedir ajuda também pode significar assumir riscos desnecessários.
Por isso, precisamos perguntar: o que essa pessoa consegue fazer sozinha? Em que realmente precisa de ajuda? O que ela deseja? Cuidar é oferecer suporte sem ocupar o lugar da pessoa.
Se tudo der certo, todos seremos pessoas idosas um dia, e provavelmente não vamos querer que outros decidam por nós aquilo que ainda podemos decidir. Quando esse processo se torna difícil, a psicoterapia pode oferecer um espaço para elaborar essas mudanças.
E quando são os filhos que não aceitam que os pais envelheceram e precisam de cuidado?
Essa é uma questão muito presente nas famílias. Às vezes os filhos percebem as mudanças antes dos próprios pais. Em outras situações, continuam enxergando aquela pessoa apenas no lugar de quem sempre cuidou deles. É uma transição para toda a família.
Um pai que sempre foi o conselheiro da família pode não conseguir mais ocupar esse lugar diante de um quadro de demência. Um pai que foi provedor pode deixar de sustentar esse papel. Isso não significa que ele deixou de ser pai. Significa que precisamos atualizar a nossa relação com aquela pessoa diante da realidade que existe hoje.
Exigir de alguém aquilo que ele ocupou um dia, mas que hoje não consegue sustentar, é manter congelada uma imagem que já não corresponde à realidade, e isso gera sofrimento para pais e filhos.
Precisamos perguntar aos nossos pais: o que vocês desejam? Em que precisam de ajuda? O que é importante preservar? Cuidar também é acompanhar as transformações do outro sem deixar de enxergar quem ele é.
Como chegar à velhice com saúde e disposição?
O envelhecimento não começa quando acordamos aos 60 anos. Nós envelhecemos ao longo de toda a vida.
Gosto de comparar com uma espécie de poupança: existe aquilo que recebemos biologicamente, mas nossas experiências também contribuem para a maneira como chegamos às diferentes etapas. Ambiente, condições sociais, hábitos, relações, acesso à saúde, alimentação e atividade física participam dessa trajetória.
Mas faço uma ressalva importante: não podemos transformar o envelhecimento saudável em mais uma cobrança individual. Nem todo mundo envelhece com o mesmo corpo, a mesma renda, a mesma rede de apoio ou as mesmas oportunidades. Por isso, falar de longevidade também é falar de desigualdade e de responsabilidade social. Não podemos construir uma narrativa de que quem envelheceu com determinada condição “não se cuidou o suficiente”.
Por que é tão importante falar sobre a diversidade da velhice?
Porque quando falamos “o idoso” como se fosse uma categoria homogênea, corremos o risco de apagar as pessoas.
Uma pessoa pode estar viajando, começando uma graduação, se apaixonando ou trabalhando aos 70 anos. Outra pode estar enfrentando uma doença, uma perda ou precisando de cuidados. As duas experiências pertencem ao envelhecimento. Precisamos falar sobre autonomia, sexualidade, aprendizagem e sonhos, mas também sobre dependência, solidão, luto e adoecimento. Uma coisa não anula a outra.
A própria OMS chama atenção para a inexistência de uma pessoa idosa “típica”. Por isso prefiro falar em velhices, no plural: não para negar o que pode ser difícil, mas para não reduzir uma pessoa à sua idade.
Uma pessoa idosa ainda consegue aprender coisas novas?
Sem dúvida. Existe um preconceito muito forte de que, depois de determinada idade, a pessoa não consegue mais aprender ou começar algo novo. E isso pode se tornar uma profecia: quando a sociedade deixa de oferecer oportunidades, também reduz as possibilidades de que essa pessoa demonstre suas capacidades.
Uma pessoa idosa pode aprender uma língua, usar uma nova tecnologia, estudar, dançar ou desenvolver novos interesses. E aprender não precisa ter finalidade produtiva: pode ser curiosidade, prazer, autonomia e participação. Continuar aprendendo é uma das formas de continuar se relacionando com a vida.
O que é o idadismo e por que precisamos falar sobre ele?
Idadismo é o preconceito, os estereótipos e a discriminação relacionados à idade. Pode aparecer de forma explícita ou em atitudes cotidianas: quando falamos com uma pessoa idosa como se fosse uma criança, quando decidimos por ela sem perguntar, quando presumimos que não consegue aprender ou quando consideramos que certos sonhos, relacionamentos ou projetos “não são mais para a idade dela”.
Também existe o idadismo internalizado, quando a própria pessoa passa a acreditar que já não deveria aprender, desejar, se apaixonar ou experimentar. Por isso, combater o idadismo é também mudar a maneira como pensamos o próprio envelhecimento.
E a solidão? Ela faz parte do envelhecimento?
A solidão pode fazer parte da experiência de algumas pessoas idosas, mas não deve ser tratada como consequência inevitável da idade. Aposentadoria, saída dos filhos de casa, perda do companheiro, morte de amigos e redução da mobilidade podem mudar as configurações de vida.
Mas é preciso diferenciar solidão de estar sozinho. Uma pessoa pode morar sozinha e ter uma vida social muito significativa. Outra pode estar cercada de gente e sentir uma profunda solidão.
A solidão não se resolve simplesmente preenchendo a agenda com atividades. É preciso perguntar: do que essa pessoa sente falta? Que vínculo deseja construir? O acompanhamento psicológico pode ajudar nesse processo. E a solidão também não pode ser colocada apenas como responsabilidade da pessoa: envolve família, comunidade, espaços de convivência e a sociedade.
O que precisamos mudar enquanto sociedade para que as pessoas envelheçam melhor?
Estamos vivendo uma profunda transformação demográfica. O envelhecimento da população exige mudanças na saúde, transporte, moradia, trabalho, educação, cultura, acessibilidade e cuidado, não apenas nos serviços de saúde. Precisamos pensar no cuidado de longa duração e no apoio às famílias cuidadoras.
Não podemos querer apenas prolongar os anos de vida. Precisamos perguntar: quem vai cuidar de quem? Como vamos organizar nossas cidades? Como vamos garantir participação? Longevidade precisa vir acompanhada de qualidade de vida, dignidade, participação e sentido.
O que você gostaria que as pessoas pensassem neste Dia da Pessoa Idosa?
Que falar sobre envelhecimento não é falar apenas sobre quem já tem 60 anos. É falar sobre todos nós. Todos estamos envelhecendo.
Talvez uma das mudanças mais importantes seja deixarmos de perguntar “como evitar envelhecer?” e começarmos a perguntar: “Como queremos viver enquanto envelhecemos?”
Porque envelhecer não é um problema a ser evitado. É uma etapa da vida a ser vivida. E, como qualquer etapa, pode trazer possibilidades, perdas, aprendizados e novos sentidos. O mais importante é conseguirmos olhar para tudo isso sem romantizar a velhice, mas também sem reduzi-la ao declínio.
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Texto: Douglas Dantas Foto: Divulgação