

Avaliando negativamente o discurso do governador na última quarta-feira durante sua prestação de contas na Assembleia, mais de dez sindicatos representantes do funcionalismo público se reuniram na última sexta-feira, 06 de março, na sede do Sindipúblicos, com o objetivo de discutir e propor as ações a serem tomadas que possam contribuir para lograr êxito na articulação das reivindicações do funcionalismo público junto ao governo.
Durante o discurso na Assembleia, várias vezes o governador exaltou a importância do Estado incentivar ainda mais a instalação de grandes empreendimentos, como novos portos, e apesar de praticamente não apresentar números concretos e transparentes, continuou a afirmar que o Estado estaria em crise financeira, sendo assim primordial realizar os cortes nas contas públicas.
Os deputados praticamente bateram continência em defesa do governador, com pouquíssimos questionamentos à política de cortes adotadas. Sérgio Mageski questionou a necessidade do governo rever os cortes já que a sociedade não tem visualizado redução nos gastos do alto escalão e os cortes tem afetado até mesmo a educação com o racionamento de merendas e a unificação de turmas. Outro que contrapôs o governador foi Enivaldo dos Anjos que levantou a necessidade de se rediscutir a utilização de água potável da Cesan pela Vale e Arcelor, além de perguntar qual o posicionamento do governador quanto ao pagamento do auxílio-alimentação dos servidores públicos.
Em todos esses questionamentos, o governador se esquivou e não respondeu diretamente as ações que serão tomadas. Quanto ao auxílio alimentação, sinalizou a não negociação ao dizer que o tema já está judicializado, sobre a utilização da água, apenas disse que irá ver o assunto junto às empresas, e sobre a denúncia à educação, comentou que infelizmente na atual conjuntura é preciso fazer cortes em todos os setores.
Com isso, por unanimidade os sindicatos reunidos definiram ser primordial a união das entidades para enfrentar o discurso fantasioso do caos econômico e a clara intenção do atual governo de precarizar o serviço público para após privatizá-lo ou terceirizá-lo. Essa postura não é novidade, foi adotada em seus governos passados, ou seja, deixar em segundo plano os serviços públicos prestados à sociedade.
O grupo de sindicatos definiu a necessidade de um trabalho em conjunto com as comunidades e movimentos sociais utilizando de diversos recursos a serem melhor definidos numa próxima reunião pré-agendada para o próximo dia 11 de março.
Análise do Discurso de Hartung
Segue abaixo um resumo da análise do discurso do governador, coordenado pelo economista e mestrando em política social Sammer Siman da RECTE Consultoria e Capacitação.
– Paulo Hartung não representa um “vôo próprio”, alguém dotado de projeto que leve o Estado a buscar um rumo mais autônomo de desenvolvimento. Pelo contrário, sua lógica operativa oferece “mais do mesmo”, ou seja, reforça uma suposta “vocação única” do Estado para servir de corredor logístico da produção de capital, restando claro que muitas vezes o discurso da “necessidade de diversificar a economia” não passa de retórica, a exemplo de quando fala de um “futuro” que reside no Petróleo e que como exemplo diz que “o Estado pode entrar como um sócio em mais um porto de águas profundas”. Daí perguntamos: Onde está a diversificação? Em mais portos? Em mais grandes empreendimentos de mineração e siderurgia?
– Sua dita “agenda de desenvolvimento”, nada mais é que a agenda de desenvolvimento dos grandes empreendimentos. Exemplo forte também é Hartung saudar a Jurong como uma grande conquista! Resta claro que a Jurong seria poupadora de mão de obra, pois o número de empregos gerados é muito pequeno e produz grande impacto ambiental
– Outro aspecto relevante é sua gramática profundamente liberal. Em vários momentos essa essência se revela, e a mais gritante delas nos pareceu a tentativa de justificar as gravidades que estão sendo cometidas no âmbito da educação como uma questão de “gestão”, de “equilíbrio”, quando o que se revela por detrás do discurso é uma massa de professores, jovens e familiares sofrendo com a ultraprecarização da a educação pública.
– Hartung se mostra ainda atrasado, pois lança mão de um discurso que já fracassou em “outras vizinhanças”, a exemplo do alardeado “choque de gestão” que se revelou como um “choque de indigestão” para os servidores do Estado de Minas e sua população, sendo um dos grandes responsáveis pela acachapante derrota do PSDB de Aécio Neves em Minas Gerais.
– Percebemos um grande foco na terceirização (hospitais filantrópicos, por exemplo), lógica gerencialista (e nada mais revelador que um especialista em finanças como secretário da saúde) e uma percepção da saúde “hospitalocêntrica”, ou seja, que vê o cidadão como doente e não como alguém que carece de cuidados preventivos (a partir de mais investimentos sociais, mais saúde preventiva – e em nenhum momento se falou de fortalecimento de PSF’s).
– Quanto à seca, Hartung nada mais fez do que reproduzir o discurso dominante de que “o problema da água reside nos hábitos” ou “na estiagem”, ou seja, reside no consumo humano e na conta de “São Pedro”, para brincar com expressão popular. Estudos comprovam que apenas 6% da água no Brasil é utilizada para consumo humano, enquanto 22% vão para atividades industriais e 72% para irrigar o água negócio. O silêncio quanto a responsabilidade da Vale, Fibria e demais grandes empresas é sintomático da subserviência de Hartung.
– Falar de mais um porto como “alternativa” é um atestado de que não existe futuro, o que existe é o aprofundamento ainda mais radical da condição dependente do Estado.
Por tudo exposto, faz todo sentido a celeuma criada por Hartung para se passar como “salvador da pátria”. Ou seja, se o Estado vai bem, e se Hartung não tem nada de novo para propor, ele então usa novamente a estratégia do “Estado quebrado”, associado com a sua capacidade de jogar com a mídia tradicional, para assim perpetua sua figura como “o mito”, “o mártir”