O que está por trás dos preços dos alimentos? Especialistas explicam.

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Segundo especialistas, os preços dos alimentos vêm subindo em todo o mundo há 18 anos. Exportações e alta do dólar impactam mais nos preços praticados dentro do Brasil.

O debate “Decifrando os preços dos alimentos” reuniu, na noite de quinta-feira (13), na sede da Fundação Perseu Abramo, especialistas que discutiram os desafios e soluções para baratear os alimentos em tempos de alta global.

José Giacomo Baccarin, economista e agrônomo com experiência em políticas públicas, relatou que os preços dos alimentos vêm subindo há 18 anos em todo o mundo. No Brasil, o preço da comida subiu no governo de Jair Bolsonaro numa média anual de 10%. Em 2020, a inflação brasileira foi de 4,5%, enquanto a da alimentação foi de 14%. No atual governo Lula, a alta ficou em média anual de 4%. No entanto, a partir de setembro do ano passado, os preços das carnes bovina e suína dispararam 23%, sendo responsáveis por 65% da inflação dos alimentos.

Num breve histórico sobre os preços, Baccarin lembrou que o preço da cenoura subiu mais de 50%, mas que isso não pode ser considerado inflação e sim um repique de preço.

“A flutuação dos preços dos alimentos é algo conhecido. Em 18 anos, ficaram em média 8% mais caros e a inflação ao consumidor cresce 5,7% ao ano, resultando em uma inflação de alimentos. Como o alimento subiu pouco em 2023, na verdade, o alimento no domicílio que compramos hoje na maior parte no supermercado já caiu um pouco de preço, então achamos que estava resolvido. Mas no ano passado houve uma reversão.”

Baccarin explicou ainda que, embora pareça estranho, a grande produção agrícola do Brasil é responsável pelos aumentos dos alimentos desde os anos 1990, intensificando-se nos anos 2000.

Segundo ele, a causa dos atuais preços praticados aqui é que os produtores preferem exportar, num momento em que o alimento está 50% mais caro no mundo. Para Baccarin, isso é uma conquista do país, das pesquisas que envolveram órgãos do governo brasileiro, e não uma vitória do agronegócio.

“Essa turma do agronegócio já é muito boa de bico, de propaganda. Por que nós viramos um grande exportador? Porque desenvolvemos tecnologia no Brasil e muita gente teve participação, como no caso da Embrapa e das universidades. Nós desenvolvemos algo que não existia e temos a melhor raça zebuína do mundo, que é um boi que veio da Índia, onde eles consomem carne. Então, a tecnologia que desenvolvemos é muito boa e somos competitivos no mercado internacional. E não falta produção no Brasil. Esqueçam isso. Isso é pontual. Não falta, não tem excesso de demanda no Brasil. Ah, brasileiro tem mais Bolsa Família, tem mais emprego, salário mínimo aumentou. Tem mais renda, vai consumir mais. Não é por aí”, analisa Baccarin.

A socióloga e diretora-técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Adriana Marcolino, concordou com Baccarin que os aumentos nos preços dos alimentos não podem ser creditados ao aumento do consumo devido aos melhores índices de emprego, renda e políticas de transferência de renda.

A diretora-técnica do Dieese criticou o mercado financeiro:

“Eu tenho a impressão de que houve um alarde demasiado pelo mercado financeiro, para dizer que precisamos de medidas que controlem o consumo, e essas medidas são aumentar os juros, retrair a economia, aumentar desemprego, reduzir o consumo de alimentos e fazer com que a população volte ao quadro de insegurança alimentar.”

Munida de gráficos, Adriana demonstrou os dados de segurança alimentar de 2020 a 2022, em que 32,8% da população estava em insegurança alimentar, sendo que deste total 9,9% estava em insegurança alimentar grave. Mas de 2021 a 2023, houve uma queda na insegurança alimentar em 18,4%, segundo a FAO, organização ligada à ONU que combate a fome no mundo.

“A gente não pode cair na armadilha, no alarde feito pelo mercado financeiro, de que temos que controlar os preços a partir do aumento de juros”, conclui Adriana Marcolino.

Independentemente dos alardes estimulados por interesses políticos e econômicos, de 2016 a 2022 houve um achatamento dos salários, com um aumento no preço dos alimentos. E hoje, o salário ainda não recuperou a elevação mais recente desse aumento. Ressaltando que, em 2019, Jair Bolsonaro (PL) acabou com a política de valorização do salário mínimo.

Além da perda de renda, condições climáticas no Brasil e no mundo pressionaram os preços dos alimentos.

Um exemplo é o café, que aumentou 50% de 2023 a 2024, a partir dos reflexos dos problemas de produção no Vietnã e da especulação na bolsa de valores, sentidos aqui no país devido a essa alta na exportação brasileira.

Outro problema associado ao aumento dos preços, citado por Adriana Marcolino, foi o desmonte da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) a partir de 2016, no governo de Michel Temer, quando o Brasil parou de investir nos estoques reguladores dos alimentos não perecíveis.

Mas uma das questões importantes em relação ao preço dos alimentos é o acesso e a disponibilidade, e os problemas de logística encarecem os preços.

“Vivemos num país continental, onde a industrialização não é equilibrada, a agricultura também não é equilibrada, então existem regiões que estão mais próximas de locais produtores e outras mais distantes. E não temos a cadeia logística dos nossos sonhos, o que envolve custos e afeta como isso chega na vida do povo”, continua Adriana.

Para ela, uma das maiores gravidades foi o desmonte do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) em 2021, no governo Bolsonaro. O PAA foi retomado por Lula em 2023.

“Foi criminoso, porque era uma das políticas mais brilhantes. Você compra do produtor, paga um preço que seria do atacado e o vende na própria região. Então, tivemos um enfrentamento da questão da insegurança alimentar com o produto consumido na própria região. As Ceasas também possuem um papel fundamental ao aumentar a oportunidade para vendas. Não é tão grande, mas cria oportunidades de acesso a alimentos para localidades que estão mais distantes, que têm mais problemas logísticos, e o governo não se utiliza dessa ferramenta que poderia antecipar as crises dos preços dos alimentos, sabendo das médias históricas, mas não faz isso.”

Propostas

Para baixar os preços de uma maneira geral, o agrônomo José Giacomo Baccarin recomenda que o governo brasileiro invista mais em crédito rural e assistência técnica para os agricultores familiares de feijão, arroz e leite, por exemplo.

“Está na hora de pensarmos numa ação mais efetiva, voltada para produtos que não temos grande competitividade no mercado internacional e que sejam produzidos por agricultores familiares. Temos toda a condição de baixar os preços e talvez este ano já volte para o patamar mais adequado, mas precisamos dar boas respostas às reclamações do povo.”

Adriana Marcolino ressalta que parte desses problemas veio para ficar, como a crise climática. “O impacto dos preços internacionais nos preços dos alimentos aqui, mesmo com o recuo do câmbio, ainda é crucial. Se temos alimentos que interferem na nossa produção, precisamos reforçar políticas – principalmente para a agricultura familiar – que garantam alimentação acessível para a população.”

Ao mesmo tempo em que acredita que a atual situação vai perdurar por mais tempo, ela diz que ainda assim é possível reverter essa situação.

“É preciso reforçar ainda mais as políticas que podem garantir alimento mais acessível para a população brasileira, particularmente as políticas para agricultura familiar, de acesso à terra, crédito, política de comercialização, assistência técnica, promoção de produção de alimentos, que fazem parte dessa cultura alimentar brasileira. E também promover políticas específicas para aumentar a produção aqui no Brasil, garantindo que esses alimentos cheguem no prato dos brasileiros e não sejam totalmente exportados. Também há um conjunto de outras políticas que é possível promover, como a eliminação dos intermediários, que melhora tanto o preço para o consumidor quanto o ganho de renda para o produtor”, defende Adriana.

A mudança na tributação dos produtos da cesta básica pode garantir a redução dos preços, desde que ela chegue ao consumidor e não se perca ao longo da cadeia, para que a população seja beneficiada com a redução tributária, acredita a diretora do Dieese.

“A gente não está propondo o controle de preços. Temos expertise; o governo Lula tem expertise em políticas de produção de alimentos, de apoio à agricultura familiar, mas precisamos ampliar e acelerar os resultados dessa política para que, de fato, a população comece a sentir os efeitos no bolso e no prato, das políticas de abastecimento e de produção aqui no Brasil”, concluiu Adriana.

Para Altivo, é preciso buscar eficiência em relação aos estoques reguladores, o que não foi feito. Ao contrário, acabaram com os estoques.

“Como deve ser feito o estoque de grão? Você compra. Daqui a pouco, você vende. É uma coisa dinâmica, você não tem que anunciar, precisa de uma política para manter uma quantidade adequada, especialmente para produzir o milho, que é fundamental, porque é a alimentação para a produção de carnes e aves”, diz Altivo.

Com informações de CUT.

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