

O Governo do Espírito Santo insiste em afirmar que o reajuste de 4% concedido aos servidores estaduais é fruto da responsabilidade fiscal e da busca pelo equilíbrio das contas públicas. No entanto, esse discurso não resiste à análise dos números e da realidade enfrentada pelas categorias. Não existe equilíbrio fiscal sem valorização equânime dos servidores, e a escolha de privilegiar algumas carreiras em detrimento de outras revela uma política nefasta, que perpetua desigualdades e desrespeita quem sustenta o funcionamento do Estado.
A proposta apresentada pelo Sindipúblicos não é um simples reajuste salarial, mas sim uma reestruturação das tabelas, necessária para corrigir anos de perdas acumuladas com reajustes abaixo da inflação ou inexistentes, além de distorções entre níveis médio, técnico e superior. O percentual de 35% defendido pelo sindicato representa um impacto médio de apenas 1,26% na folha do Executivo, praticamente irrelevante diante do orçamento estadual. Já os 4% oferecidos pelo governo significam apenas 0,14%, um valor que não recompõe sequer minimamente as perdas históricas.
A contradição se torna ainda mais evidente quando se observa que, ao mesmo tempo em que restringe a valorização dos servidores, o governo injeta bilhões do Fundo Soberano em startups recém-criadas, sem transparência e sem garantia de retorno. É incoerente alegar falta de recursos para corrigir distorções salariais enquanto se financia iniciativas privadas incertas. Não existe tecnologia sem pessoal qualificado e servidor valorizado. O desenvolvimento do Espírito Santo nos últimos 20 anos foi fruto da atuação dos servidores, que retiraram o Estado da lama da corrupção e garantiram estabilidade institucional.
As tabelas de vencimento estão tão defasadas que algumas categorias recebem menos que o salário mínimo R$ 1.621 . O Assistente de Trânsito, por exemplo, inicia sua carreira com R$ 1.375 e, após décadas de trabalho, chega a apenas R$ 1.888. Pela proposta do governo, teria um reajuste de míseros R$ 55. Já o Assistente de Unidades de Conservação do Iema, fundamental na proteção dos parques estaduais, recebe R$ 2.526 e teria um acréscimo de apenas R$ 101, chegando a R$ 2.627. Esses valores são incompatíveis com a responsabilidade das funções desempenhadas e configuram desvalorização institucionalizada.
O contraste com o alto escalão é gritante. O salário do governador saltou de R$ 20.408 em 2018 para R$ 34.774 em 2025, um aumento de 70%. Os secretários passaram de R$ 16.239 para R$ 24.644, um acréscimo de 51%. Enquanto isso, o Assistente de Trânsito do Detran saiu de R$ 1.093 para R$ 1.375, apenas 25%. O discurso de equilíbrio fiscal, portanto, serve apenas para justificar a desvalorização das categorias menos favorecidas, enquanto os cargos políticos acumulam aumentos muito acima da inflação.
Diante desse cenário, os servidores permanecem em estado de greve e não descartam retomar paralisações, inclusive em período eleitoral. Incluindo mobilização nas ruas, feiras e eventos públicos para expor as contradições do governo e cobrar a valorização prometida, mas ainda não cumprida. O reajuste de 4% não é valorização, é maquiagem. O verdadeiro equilíbrio fiscal só existe quando há justiça remuneratória e respeito ao trabalho dos servidores que sustentam o Estado. Ignorar essa realidade é perpetuar uma política injusta, que privilegia o alto escalão e condena a base do funcionalismo à estagnação.
Dados:
* Dados de 30/01/2026 via Portal da Transparência do Espírito Santo.
Tem um artigo interessante ou um texto que gostaria de compartilhar com os companheiros? Ou talvez queira sugerir uma pauta? Envie um e-mail para jornalista@sindipublicos.com.br. Vamos juntos construir um Sindicato cada vez mais forte e atuante! Participe e faça a diferença!
Quem faz o Sindicato somos nós!
E quem representa você é o Sindipúblicos! Filie-se!
Texto: Douglas Dantas Foto: Divulgação