
Por André Michelato
Professor de Sociologia da Universidade Federal do Espirito Santo. Doutor em Sociologia. Mora em Vitória/ES. Brasilieiro antes de qualquer coisa.
Em tempos da hegemônia consumista da CRASSE média, onde IPI reduzido se torna política pública da felicidade e diploma é a única coisa que importa para jovens e adolescentes, as greves passam a ser alvo de ódio e temor por grande parte desta nossa sociedade.
Historicamente, as greves já foram aplaudidas e ovacionadas pelos grupos sociais que nunca tiveram chance de serem ouvidos pelas elites locais. No entanto, a sensação, isso mesmo, a sensação que tenho a cada dia que passa, é que essa juventude que se diz esperta, audaciosa, que compreende a tudo e a todos, que tem pressa para dizer o que sabe e pressa para adentrar ao mundo do poder de compra, tem asco e nojo da palavra greve.
A grande e esmagadora maioria desta juventude que se diz libertária esta cada vez mais atrelada a um mundo naturalizado, onde fazer um curso universitário o mais rápido possível, pois este é apenas um trâmite burocrático-legal para sua inserção no mercado de trabalho, é o único e exclusivo objetivo. Mercado este que passa a ser espaço de cor, vida e aromas que lhes permitirão a felicidade e o gozo.
Assim, faço alguns questionamentos sobre as universidades públicas: para quê educação atrelada à pesquisa e à extensão, para quê laboratórios equipados e “modernos”, para quê professores da área de humanas (estes são críticos e “viajam” muito!!! que existam apenas os professores técnicos, eles são nossos passaportes para a felicidade do mercado de trabalho), para quê prédios com boa infraestrutura (eu preciso apenas de uma cadeira e um professor que seja pouco exigente, ok!?), para que professores exigentes (quero passar sem dor pela universidade, ok!?), para quê bibliotecas equipadas (baixo tudo na internet mesmo!!), para que banheiro limpos, para que centro acadêmico (ah, este é para festas!!!), para quê sindicato (para me tirar as MINHAS férias)… bla bla bla bla….
Uma juventude que bate no peito e arrota poder, o poder da geração Y, que se movimenta e atua como um IPOD e Twitter, achando que os problemas do mundo podem ser resolvidos com curtidas e compartilhamentos.
Uma juventude que quebra tradições como se isso fosse fazer a revolução, mas ao mesmo tempo normatiza uma sociedade de exclusão, individualismo e escravismo ao consumo.
E as greves passam a ser odiadas. E porquê? Me parece simples a resposta, embora não seja nem um pouco. Mas arrisco dizer, que as greves atingem a cada um e a cada uma naquilo que tem de mais nobre nos dias de hoje: EU sei, EU posso, EU faço. Uma greve é um processo coletivo, onde o EU quase não existe. As decisões são coletivas (ou seja, os grupos que tem mais força ou querem ter mais força ganham), o processo coletivo não respeita a velocidade do EU, o EU é estuprado, é usurpado da sua condição de liberdade e libertação. O EU esta morto. Contrariamente, na vida de consumo (não querendo utilizar Bauman, ok!!!), o EU esta iluminado, no palco das celebridades, o EU é único e exclusivo.
E é isto que incomoda e faz com que esta juventude tenha ódio, rancor, medo, asco e nojo das greves.
E a questão permanece: onde isto nos levará?