

Enquanto impõe cortes em áreas sensíveis sob o argumento de responsabilidade fiscal, o Congresso Nacional amplia sua influência sobre o Orçamento da União por meio de emendas parlamentares turbinadas, muitas vezes sem transparência e voltadas a interesses eleitoreiros. Paralelamente, avança com pautas contra o povo como o aumento da idade mínima para aposentadoria, o congelamento do salário mínimo e a Reforma Administrativa. O paradoxo é evidente: o Legislativo exige austeridade do governo federal, mas promove uma farra bilionária com dinheiro público — e, pior, em benefício próprio.
O Brasil vive uma transformação institucional tão sorrateira quanto devastadora. O Congresso, que deveria fiscalizar e legislar, hoje domina a execução orçamentária. O Executivo, constitucionalmente responsável por planejar e executar políticas públicas, tornou-se refém de um sistema de barganhas. Especialistas chamam o fenômeno de “parlamentarismo informal” ou “parlamentarismo branco” — um modelo que desequilibra os poderes e compromete a sustentabilidade da gestão pública.
Em 2014, as emendas parlamentares representavam R$ 200 milhões. Onze anos depois, somam R$ 50,4 bilhões — 25% de todas as despesas discricionárias da União. Projeções apontam que, mantido o ritmo atual, em 2027 elas consumirão metade desses recursos. Em 2029, o Executivo poderá operar em déficit.
Esse crescimento foi impulsionado por mecanismos como as emendas individuais, de bancada e, mais recentemente, as “emendas Pix” — transferências diretas, muitas vezes sem critério técnico, rastreabilidade ou transparência. O resultado é um orçamento pulverizado, fragmentado e descolado das prioridades nacionais.
Segundo o procurador de Justiça Roberto Livianu (confira entrevista aqui), valores expressivos vêm sendo desviados de áreas essenciais — como saúde, educação, saneamento e segurança — para obras de baixa relevância federal, como reformas de praças ou instalação de equipamentos em municípios sem planejamento adequado.
A Constituição Federal estabelece que cabe ao Executivo elaborar o orçamento, enquanto o Legislativo deve analisá-lo e fiscalizá-lo.
Ao determinar diretamente como e onde aplicar recursos, o Congresso invade competências do Executivo e compromete sua própria função de controle. A violação da separação de Poderes, cláusula pétrea da Carta Magna, torna-se rotina — corroendo a legitimidade institucional.
Enquanto bilhões são liberados para fins duvidosos, programas fundamentais sofrem cortes. Nesse bojo, entra a sustentabilidade do serviço público, com cortes e arrocho aos servidores públicos, que fazem a máquina funcionar e levar serviços essenciais à sociedade.
Com os valores desviados a projetos escusos e duvidosos, falta verba para áreas fundamentais como a universalização do saneamento básico em um país que, em pleno 2025, mais de 100 milhões não têm coleta de esgoto em seus domicílios. A substituição de decisões técnicas por interesses eleitorais representa um retrocesso humanitário.
A apropriação do orçamento público pelo Legislativo brasileiro é uma anomalia no contexto internacional. Em países como Austrália e Chile, o Parlamento sequer pode aumentar despesas. Nos EUA e França, há limites rigorosos (1%) e exigência de compensações. No Brasil, em contrapartida, não há teto, tampouco mecanismos eficientes de rastreabilidade.
Mais do que um problema fiscal, as emendas parlamentares são uma distorção do próprio regime democrático. O orçamento se transforma em moeda de troca por apoio político, e o bem público é instrumentalizado por interesses privados.
Como destacou Roberto Livianu em audiência no STF: “Se o Congresso define os gastos, rasga a Constituição e compromete o planejamento da República”.
É urgente estabelecer:
Sem essas medidas, o Brasil continuará prisioneiro de um modelo que fragiliza o presidencialismo, mina a governabilidade e esgarça a confiança da população nas instituições republicanas.
Tem um artigo interessante ou um texto que gostaria de compartilhar com os companheiros? Ou talvez queira sugerir uma pauta? Envie um e-mail para jornalista@sindipublicos.com.br. Vamos juntos construir um Sindicato cada vez mais forte e atuante! Participe e faça a diferença!
Quem faz o Sindicato somos nós!
E quem representa você é o Sindipúblicos! Filie-se!
Texto: Douglas Dantas Foto: Montagem c/foto Agência Brasil