

Isabella Mamedi*
No Espírito Santo, o aumento da tarifa do Transcol se repete todo janeiro, como um filme repetido. Em 2025, saiu de R$ 4,70 para R$ 4,90. Neste ano, a passagem subiu para R$ 5,10; Sempre o mesmo ciclo: reajuste anunciado, aprovação no conselho, protesto da população, vida que segue mais cara para quem já vive no limite. É o sistema funcionando como foi desenhado para funcionar. A engrenagem é simples e eu vou te mostrar.
No contrato celebrado em 2014, que pode durar até 40 anos, há uma previsão de reajuste automático todo janeiro “para assegurar o equilíbrio econômico-financeiro” das empresas, mesmo quando o salário da população não acompanha o mesmo ritmo. Hoje, a tarifa consome em média cerca de 14% da renda de quem vive de salário mínimo, segundo a própria Ceturb-ES. Esse serviço caro corresponde à qualidade? São frotas reduzidas nos fins de semana, baixa cobertura nas periferias e linhas desenhadas pela gestão, que tem uma realidade muito diferente da população que de fato usa o transporte todo dia.
E o mais grave, o Transcol também tem fronteira fechada, isso significa que atende só a Grande Vitória. Quem mora no interior do Espírito Santo simplesmente não existe nessa construção de política pública estadual.
E quando o contrato não bastou, mexeram fora dele. Em 2020, na pandemia, o Estado forneceu R$ 13,1 milhões em diesel de graça às empresas ligadas ao transporte público, sem previsão legal. O Ministério Público de Contas (MPC-ES) chamou isso pelo nome certo: subsídio ilegal. Enquanto isso, mais de 1.500 empresas fecharam no ES no mesmo período, sem receber nada parecido.
A sociedade civil, que deveria vigiar esse jogo, é frágil! Você já ouviu falar no Conselho Gestor de Transporte? Esse colegiado se reúne uma vez por ano só para validar o reajuste, sem debate sobre qualidade e sem planilhas de custo abertas ao público. Em 2022, a Defensoria Pública do ES processou o Governo do Estado e a Ceturb-ES justamente por isso.
Enquanto o Brasil vira a página: mais de 140 cidades já adotaram a tarifa zero, com resultados positivos de mobilidade, redução do trânsito e sustentabilidade, no Espírito Santo nem se discute algo básico, como tarifa zero para estudantes de nível superior.
E o próprio Ministério Público de Contas do ES (MPC-ES) já fez a pergunta que não quer calar: “se o Estado já injetou bilhões nesse sistema, por que não implementa a Tarifa Zero de vez?” Mais que uma questão de mobilidade, a medida é vista hoje como um possível “novo Bolsa Família”, capaz de injetar renda direta no bolso de quem mais precisa, simplesmente por deixar de cobrar o que já é, na prática, custeado pelo Estado, como apresentado no estudo da UnB e da UFRJ intitulado “A Tarifa Zero no Transporte Público como Política de Distribuição de Renda”, de 2026.
O ir e vir não pode continuar sendo mercadoria vendida para quem tem mais e negada para quem tem menos. Todo jogo pode ser virado quando quem joga deixa de aceitar a derrota. Mobilidade urbana é direito e a Tarifa Zero e a gestão participativa nesse setor são cada dia mais urgentes no Espírito Santo!
*Isabella Mamedi, mestranda em Políticas Públicas (UNB), ex presidente do DCE da UFES e ex-conselheira do Conselho Gestor de Transporte da Grande Vitória (CGTRAM, 2018–2020).
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Foto: Citamobi