
Por Roberto Garcia Simões.
Professor da Ufes e especiaIista em políticas públicas
Essa avaliação de governo não expressa o serviço real prestado aos mais de 16 milhões de passageiros mensais do Transcol. É só ouvir as “ruas”
Incrível, mas é sim a resposta da “Avaliação de desempenho mensal das operadoras do sistema Transcol”, da Ceturb-GV. Antes de avaliar essa avaliação, que contrasta com o nefasto padrão vivenciado pelas pessoas, sintetizo a “metodologia” adotada.
Definiram-se três grupos e 10 quesitos: 1) serviço – horários, reclamações dos usuários e notificações de irregularidades; 2) segurança – manutenção e conservação da frota, acidentes de trânsito, controle de emissão de fumaça; 3) controle de receita – lacre. O máximo que uma das 12 empresas do Transcol pode atingir é 100 pontos. Os dois limites (confusos) que classificam os serviços são: a) Mérito – 90% “igual ou acima dos pontos possíveis”, e b) Demérito – 75% “igual ou acima dos pontos possíveis”.
Embarquemos em duas avaliações mensais, neste ano, das “operadoras do Transcol”. Em julho, no auge dos movimentos das ruas, 10 empresas pontuaram acima de 90 pontos. Outra teve 82,6% e a última, 77%. Dependendo da interpretação dos limites, ambas também podem ser enquadradas no Mérito. Passando para outubro, todas as empresas suplantaram 80 pontos; a média foi 95% – quase Mérito pleno. Haja distância entre governo e sociedade.
Além da escala de pontos, a avaliação oficial atribui o terceiro menor valor às “reclamações dos usuários” e ao “controle da emissão da fumaça”. O “quesito” segurança desconsidera a insegurança dos passageiros, portanto roubos e arrastões crescentes nos terminais e nos coletivos – quando não tiroteio.
Essa avaliação de governo não expressa o serviço real prestado aos mais de 16 milhões de passageiros mensais do Transcol. É só ouvir as “ruas”. Assim, se mais de 90% das empresas ultrapassam 90 pontos, Mérito na visão da Ceturb, não há o que cobrar das empresas para melhorar o serviço. Por outro lado, os recorrentes atrasos nos investimentos do governo agravam a mobilidade.
Transporte sustentável não é corredores com grandes obras viárias do século passado, a serem apropriadas principalmente pelo carro, desfigurando a paisagem e a história de Vitória. Várias cidades estão demolindo viadutos. O que se busca é potencializar diferentes modais que valorizem o ambiente e, socialmente, as pessoas.
É preciso mudar a avaliação da Ceturb-GV, com novos critérios, e, principalmente, abrindo-a para a participação da sociedade – que não pode estar de passagem no serviço público.
Fonte: A Gazeta, 10 de dezembro de 2013, página 17.
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