O Conflito na Criméia, portos, Espírito Santo e você: tudo a ver

Por: Roberto Vervloet*

portos esSabe o que tem a ver o conflito na Criméia, a implantação de portos no Espírito Santo, o pedágio das estradas federais e você? Tudo. Nos últimos meses várias notícias em jornais tem relatado o conflito que ocorre na Península da Criméia entre a Ucrânia e a Rússia, em disputa por um território que pertence à Ucrânia. Tudo diante da pseudo intervenção dos Estados Unidos e da União Europeia que, com interesses geopolíticos e comerciais explícitos, procura a todo custo impedir a realização da anexação do território a Rússia e/ou a busca da autonomia federativa por parte dessa província.

Diferentemente do que tem sido noticiado o desejo da Rússia sobre a Criméia tem claros interesses comerciais, pois se trata da ampliação de uma das mais importantes rotas de comércio marítimo dos próximos decênios. A Criméia é, claramente, uma ponta geográfica de saída para o mar Mediterrâneo onde a Rússia, por meio de ampliação de seus portos, terá condições de aprofundar seu comércio com a África Setentrional e Ocidental, que tem PIB crescente em torno de cerca de 5% (2014) ao ano e, principalmente, com a China. O gigante asiático, por sua vez, procura uma rota de ampliação de seu comércio marítimo com o Atlântico, objetivando fortalecer suas relações comerciais com a África Ocidental. Pouco noticiado é o fato de que a China constrói um canal de passagem na Nicarágua, como forma de evitar o canal do Panamá (controlado pelos Estados Unidos) e, assim, ampliar essa rota de comércio entre o Oceano Pacífico, Atlântico e Mar Mediterrâneo. Mas o que tem tudo isso a ver com os pedágios das estradas federais o Espírito Santo e você? Vejamos.

Já começou a cobrança de pedágio na principal estrada federal que corta o Estado. Essa cobrança, que muitos acreditam ter o objetivo de melhorar o tráfego e as condições das estradas, faz parte do aperfeiçoamento da infraestrutura logística necessária ao escoamento da produção, vinda dos grandes centros como Belo Horizonte, Rio de Janeiro e parte de São Paulo. Trata-se da formação de verdadeiros sistemas lógicos de escoamento rápido conectado aos portos que estão sendo implantados no Estado, na verdade, a formação de uma paisagem de escoamento. A implantação e ampliação dos portos no Espírito Santo é concomitante a “privatização” das estradas federais. Coincidência? Com as “privatizações” tem-se capital, pago pelos usuários, para expansão da infraestrutura básica e necessária para os “modais logísticos integrados”. Os grandes complexos de produção e exportação conectados por rodovias, ferrovias e portos.

Desta forma, observa-se que estes modais logísticos integrados, formados por portos e rodovias federais ampliadas, tem como finalidade preparar o território e a economia nacional/regional para inserção na nova rota marítima comercial que está se formando entre a China, Rússia, África Setentrional e Mar do Caribe. E tem gente que ainda acha que o Porto de Mariel em Cuba, construído pelo Brasil com dinheiro do BNDES, foi para investir em nossos irmãos caribenhos, em função de “questões ideológicas”. Sabe de nada Inocente! Pois é, é o Estado da moqueca capixaba tentando se inserir nas diretrizes da economia Global. Você paga pedágio para financiar modais e cadeias logísticas integradas pra empresário engravatado escoar sua produção inserida na nova geopolítica comercial internacional que se avizinha. Quem diria? Um conflito lá na Criméia reflete a interferência do Estado no meu direito de “ir e vir sem ser molestado”, afetando minha vida, a sua e a de todos nós. Isso aí cidadão, pague seu pedágio, junte bastante capital para ampliação dos modais de logística (leia-se, também, complexos de escoamento produtivo). E ainda tem gente que acha que as privatizações das rodovias federais são para melhorar o trânsito. Sabe de nada inocente!

 

* Geógrafo e Geomorfólogo – Doutor em Geografia Física pela USP, servidor público estadual e membro da base do Sindipúblicos.