Médico e economista detalham propostas para garantir isolamento e renda

O Espírito Santo chegou nesta terça-feira (23)  à 1.387 mortes e 36.147 infectados por Covid-19 figurando entre os dez estados com maior número de casos e em nono lugar no índice de mortalidade. Segundo dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS), já são 33 mortes/cem mil habitantes.

Esse número crescente de mortes fez o Espírito Santo ficar também entre os estados com mais mortes por Covid-19 em 24h. Nesta terça (23) foi registrado 59 óbitos. 

A equipe de reportagem do Sindipúblicos entrevistou um médico e um economista para entender como o Estado poderia atuar para reduzir esses números de mortos e infectados mas também garantindo renda.

Para os especialistas ouvidos, esse número de mortes poderia ser bem menor caso o Governo Casagrande tivesse adotado uma política rígida de distanciamento social. Porém, tem se visto uma flexibilização das atividades econômicas e nenhuma punição efetiva aos cidadãos que não cumprem as medidas, com praias e calçadões lotados e milhares de capixabas nas ruas sem máscaras.

Avaliação médica

Crispim Cerutti, doutor em doenças infecciosas e parasitárias

Para o médico Crispim Cerutti, doutor em doenças infecciosas e parasitárias pela USP, a abertura do comércio no Espírito Santo aconteceu em momento inadequado, com a curva ainda crescente. “A maior parte dos lugares, a flexibilização aconteceu quando a curva diminuiu, isso seria o adequado. O Estado tem dado à rede de saúde uma plasticidade na medida que a demanda é impositiva. Mas a questão dos dois elementos, aumento de leitos e flexibilização, não se mostra muito adequado, aumentar a rede sem o devido isolamento social”.

É preciso destacar que o índice de sobrevida para os que necessitam de UTI é de apenas 30 a 40%. Ou seja, a cada dez internados em UTIs, em torno de apenas 4 sobrevivem. O que mostra-se que o mais correto seria reforçar o isolamento social para evitar a contaminação e como consequência a utilização de UTI’s. “Distender a economia no momento que está? Abriu a economia cedo demais” comenta.

O médico ainda alerta que é preciso as autoridades serem “sensíveis o bastante para determinar o momento adequado de se estabelecer o lockdown” e alertou ainda sobre a gravidade do sistema de transporte público estadual. “O grande nó tem sido o transporte coletivo. Tem que ser ampliado, trabalhado com mais de 100% da capacidade e não reduzido. E ter rígida retenção, garantindo distanciamento, nunca irem em pé, nunca formarem aglomeração e usar máscara e álcool, isso é política pública”. 

Economia

Arlindo Villaschi, economista

A flexibilização teria sido diante o Estado ter sido pressionado por empresários e pela sociedade em geral que se viram sem renda e com situação financeira agravada. Porém, segundo o economista Arlindo Villaschi, deve-se destacar que o país já vivenciava uma crise anterior, com muitos comércios já fechando as portas. Alguns só justificaram a pandemia para isso. Para Villaschi, a Covid-19 só agravou a situação.

No entanto, Villaschi vê alternativas. “Todos os governantes têm que sair da zona de conforto, que atualmente é contratar segundo normas de licitação, de tomadas de preços, onde já sabe quem vai ganhar. É preciso fazer chamadas e contratação de mão de obra local”.

Ainda destaca  que “prefeituras e governo do Estado precisam abrir frentes de trabalho onde há carência, com obras de infraestrutura, como sanitária, lazer, saúde educação e utilizar moradores locais como pedreiros, carpinteiros entre outros, para que esses estruturem suas próprias regiões evitando deslocamento e gerando renda e empregos”.

Outra frente de manutenção de postos de trabalho, conforme Villaschi “é o governo e os municípios articularem ações entre fornecedores locais de gêneros e serviços variados e compradores locais desses bens e serviços. Os supermercados capixabas estão dando preferência a fornecedores do próprio Espírito Santo? A Secretaria de Saúde tem comprado de produtores locais?”

Outra crítica é quanto o acesso ao crédito, o que tem gerado muita reclamação da população por conta da burocracia. “O que o sistema de crédito e financiamento do governo do Estado (Banestes, Bandes, Aderes) está fazendo? O Estado tem competência e está fazendo diferente daquilo que fazia antes? Quais são os clientes novos que conquistaram? O que mudou a lógica econômica? Nada. Continuam obedecendo a lógica do sistema financeiro, com regras e exigências de antes da pandemia, limitando que o crédito chegue a quem precisa”.

Por fim, Arlindo comenta a importância da reconversão da indústria, ou seja, as empresas passarem a produzir conforme a demanda desse momento. “Temos uma belíssima indústria de confecção. Por que não usarmos ela para fazer lençóis e outros materiais para os hospitais? Por que não usarmos nossa competente indústria metal-mecânica para fornecer móveis e outros materiais hospitalares?”

O economista ainda destacou a importância dos servidores públicos nesse momento. “O que podemos melhorar no serviço público? Como podemos atender melhor a nossa comunidade?” O economista acredita que além da valorização dos servidores, é preciso que se discuta o papel do servidor nesse momento, com os profissionais contribuindo para as demandas específicas.

Posição do Sindipúblicos

O Sindicato reforça sua defesa irrestrita pela manutenção das vidas, que só se faz com o cumprimento das recomendações médicas-sanitárias e fortalecimento da economia. É preciso que o governo além da ampliação dos leitos, seja rígido na fiscalização quanto ao isolamento social e reveja a flexibilização de setores não essenciais que geram aglomerações, inclusive no próprio serviço público.