Gosto amargo do poder

hartung

Por Cesar Herkenhoff*

Azedaram de vez as relações entre o governador Paulo Hartung e os servidores públicos do Poder Executivo do Espírito Santo. Amargando o congelamento de salários em época de inflação em alta, o Sindipúblicos decidiu soltar uma nota de repúdio à resposta a uma carta enviada ao funcionalismo junto com o contracheque do mês de junho.

No documento, o governador Hartung ressalta que apesar dos tempos de crise, o Espírito Santo tem conseguido manter o pagamento dos servidores e todas as suas contas em dia, ao contrário de outros Estados da Federação – o caso mais grave é o do Rio de Janeiro que em menos de 30 dias estará promovendo os jogos olímpicos sem que qualquer pessoa possa prever com razoabilidade os rumos que o evento pode tomar.

Voltando à vaca fria (se alguém puder me explicar a origem do termo, agradeço), o governador capixaba ressalta que com o modelo de gestão e o equilíbrio financeiro adotado, o ES é visto como um modelo para o Brasil.

O Sindipúblicos considera a atitude do governador um deboche e um desaforo, porquanto além de violar os preceitos constitucionais com frequência, o governo Hartung mostra faltar com criatividade e a verdade. E lembra que passado um ano do envio de uma carta em que alarmava os servidores quanto à situação financeira do Estado, “mais uma vez utiliza da mesma tática para continuar vendendo o discurso do caos”.

Ao reassumir o comando do Palácio Anchieta, Paulo Hartung, de fato, pintou um cenário caótico, responsabilizando seu antecessor Renato Casagrande por um desastre administrativo que não se confirmou. Pelo contrário: os números formalmente divulgados indicavam que as finanças do Erário Estadual estavam sob absoluto controle. A indignação dos servidores parte do pressuposto de que o governador, na carta enviada junto com o contracheque de junho de 2016, apenas se autopromove e se vangloria de estar pagando os salários, como se não fosse uma obrigação estabelecida em lei.

Hartung defende também seu compromisso com a transparência das contas públicas, mas o Sindipúblicos considera essa (e outras) manifestação contraditória, porquanto, segundo a representação da categoria, enquanto o governador diz prezar pela transparência, na prática esconde a sete chaves as empresas financiadoras de suas campanhas que recebem bilhões de renúncias fiscais. E as críticas não param aí: o governador capixaba fala em respeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas não diz que a recente aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias LDO/2017 não respeita as determinações legais.

Protestam ainda os servidores pelo fato de o governador anunciar que tem promovido a entrega de obras em dia, mas esquece que reformas simples estão atrasadas há anos como a perícia do IPAJM, as instalações do prédio do Detran na Avenida Fernando Ferrari, sem contar no elefante que virou o Cais das Artes, herança de sua primeira gestão.

Hartung garante a continuação de esforços para diminuir despesas com contratação de pessoal em comissão e temporário, revisão dos contratos e convênios em busca de menores valores, visando dar mais eficiência aos gastos públicos. Essa proposta, segundo a visão do Sindipúblicos, reflete a má-gestão desse governo, porquanto apesar de determinação em sentido contrário do STF, essa prática continua sendo adotada no ES.

Segundo o Sindipúblicos, antes de redigir cartinhas, Hartung deveria colocar em prática suas palavras, pois parece que o documento saiu de uma das páginas das histórias de Pinóquio. Neste sentido, os servidores dispensam o abraço do governador e outras cartinhas, e exigem a reposição inflacionária, a concessão do auxílio-alimentação e condições de trabalho.

O certo é que se o Estado não pode destinar toda a sua receita ao pagamento de pessoal, até porque a vedação constitucional, não me parece de bom tom colocar a vaidade acima de quaisquer outros interesses. Hartung e os servidores estaduais vão continuar divorciados.

Jornalista da coluna Hugo Borges, Jornal ES Hoje, 08/07/2016