Especial Águas – Agricultura familiar e a preservação do meio ambiente

OLYMPUS DIGITAL CAMERA
A preferência pelo investimento no agronegócio e nas grandes indústrias, ao invés de mais recursos para agricultura familiar é histórica no Espírito Santo. Para compreender melhor como esta questão tem relação direta com as causas da falta d’água, o Sindipúblicos conversou com o coordenador estadual do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Valmir José Noventa. Além das mudanças climáticas, Noventa aponta o modelo de agricultura predominante no Brasil e o alto consumo de agrotóxico como os principais fatores para a escassez da água. Noventa também fala sobre a falta de investimento do Governo Estadual e quais são os desafios para combater a seca.

Quais são as principais causas da falta de água no Estado, em especial no Norte do ES?

Primeiro, as mudanças climáticas. Nos últimos anos, todo o planeta vem sofrendo com a destruição ambiental e isso acarreta mudanças climáticas. A emissão de poluentes e o desmatamento são as principais causas desse fator. Nos últimos anos, as frentes frias chegam ao ES com menos umidade, com pouca força, provocando menos chuva.

O segundo fator é o modelo agrícola que temos em todo o Brasil, especialmente no Norte, que é altamente dependente de água. Praticamente 100% de todas as lavouras são irrigadas, o que na década de 80 não chegava a 20%. As maiores consumidoras são café, eucalipto e fruticultura para exportação, especialmente mamão. Enquanto estas culturas aumentaram de área, diminuiu as áreas ocupadas com mandioca, feijão e milho. Vale destacar que a grande propriedade é onde se concentra o maior consumo de água, ou seja, 80% da água usada no Espírito Santo esta concentrada nas mãos de 1% dos proprietários de terra. Praticamente toda a produção do agronegócio vai para exportação, portanto o Estado é um grande exportador de água, mesmo sendo uma região que sofre com a falta de água. No caso do eucalipto, embora as plantações não sejam irrigadas, a planta tem capacidade de buscar água em grandes profundidades fazendo secar fontes e córregos.

O último fator é a destruição ambiental. Com a aceleração do desmatamento e uso intensivo de agrotóxicos e maquinários pesados, o solo foi ficando mais árido, compactado e com pouca capacidade de reter água. Com isso, a maior parte das chuvas acaba no dia seguinte indo para o oceano. Podemos destacar as enchentes do final do ano passado que afetaram varias cidades, com poucas horas de chuva, provocaram grandes inundações.

Qual o impacto do agronegócio no meio ambiente e como ele afeta diretamente a falta de água?

O agronegócio é responsável pela maior parte do consumo de água, e, praticamente, não paga por isso, além de receber grandes incentivos do governo. Outra agravante é a contaminação. A pouca água que ainda existe está contaminada por resíduos tóxicos. O Brasil se tornou a partir de 2009 o maior consumidor mundial de agrotóxicos, consumindo mais um bilhão de quilos. As principais culturas para exportação (soja, café, cana, celulose, e milho) são responsáveis por mais de 80% deste consumo. Vale lembrar que a partir, de 1950 com a entrada da Revolução Verde, a agricultura brasileira ficou nas mãos das multinacionais forçando a entrada dos agricultores nesse modelo. Quem não aderia era considerado atrasado.

Quais seriam as medidas que o Estado deveria tomar para prevenir a falta de água?

É necessário inverter a lógica de produção. Para isso, o Governo Estadual precisa ter ações fortes no sentido de proteger a agricultura de baixo consumo de água e que preserve o meio ambiente. Outra questão importante é impedir que grandes projetos de mineração e de monoculturas se instalem na região. Não é verdade que os grandes projetos são os responsáveis pela geração de empregos, os dados do IBGE de 2006 mostram que 85% dos empregos no campo estão nas pequenas propriedades.

Como o investimento na agricultura familiar pode contribuir com a prevenção da falta de água?

Os camponeses ainda se preocupam com a preservação das nascentes e das matas. Um exemplo é a diferença entre os municípios de Montanha e Pancas. No primeiro, dominado pelas grandes propriedades, as matas praticamente desapareceram. Já em Pancas, praticamente em todas as pequenas propriedades ainda há uma parte preservada. É necessário ainda investimento em pesquisa direcionada para a agroecologia, aquilo que já é feito pelos camponeses pode ser aperfeiçoado ainda mais, aumentando a produção a preservando a natureza.

Nos últimos anos, quais foram os investimentos do Governo do ES na agricultura familiar? Foram suficientes?

Praticamente nada. Houve algumas iniciativas, como o Programa Produtor de Água e o Reflorestar. Mas muita pouca coisa saiu do papel. O MPA por diversas vezes apresentou propostas ao governo no sentido de enfrentar minimamente o problema ambiental. Mas o governo não assumiu o problema da falta de água de fato como um dilema a ser resolvido. Por outro lado, as grandes empresas, especialmente de mineração se expandiram no noroeste capixaba.

Quais são os principais desafios?

Temos dois desafios principais. O primeiro é envolver a sociedade. O dilema ambiental e o alimentar estão ligados diretamente. É necessário que toda a sociedade, rural e urbana, se interesse pela questão. Outro grande desafio é convencer o governo. O poder público não está convencido de que a falta de água é um problema. Empurram a solução sempre para o próximo governo. Preferem apoiar investimos industriais em relação aos projetos que garantam o equilíbrio ambiental. Talvez, porque as empresas que financiam suas candidaturas são as mesmas que destroem a natureza.

Leia também a matéria especial sobre seca e enchentes no Espírito Santo.