Entrevista | “Automatização do trabalho é história da erosão da classe média”, Daniel Susskind

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Daniel Susskind , professor de Oxford afirma que, em um mundo com menos trabalho, é papel do Estado distribuir renda e evitar aprofundamento de desigualdades.

Na década de 1960, a preocupação econômica dominante traduzia-se na famosa frase do ex- ministro da Fazenda Delfim Netto: “Primeiro temos de fazer o bolo crescer para depois distribuí-lo”. No século 21, contudo, as preocupações parecem ser sobre como cortar as fatias, de que tamanho cortá-las — e, principalmente, quem vai abocanhá-las.

A distribuição de prosperidade é a preocupação central da obra do economista inglês Daniel Susskind. Ele avalia que a pandemia de coronavírus, diferentemente de pestes anteriores, aumentou a desigualdade em vez de diminuir.

Essa preocupação se soma à com o avanço tecnológico ser capaz de, em igual medida, aumentar a produtividade, ou seja, fazer o bolo crescer, e reduzir a oferta de trabalho, impactando a possibilidade de distribuir as fatias.

“Sete das dez maiores empregadoras do mundo são instituições do Estado.”

Raio-X

Daniel Susskind é professor e pesquisador na faculdade de economia de Oxford (Balliol College in Oxford University​), na Inglaterra. Ele já foi conselheiro político no governo britânico e analista de políticas públicas e escreveu dois livros “O futuro das profissões” (Gradiva, 2019) em parceria com seu pai, o advogado Richard Susskind, e “Um mundo sem trabalho” (Porto Editora, 2020)

Com a crescente automatização que marca a entrada no século 21, cada vez mais funções antes inquestionavelmente humanas são realizadas por máquinas. O trabalho, que no século passado ocupou espaço central na distribuição de renda, não é mais um mecanismo confiável para a tarefa.

Susskind duvida que robôs assumam todos os trabalhos de um dia para o outro, mas diz que a pandemia mostra como será um mundo com menos empregos —e o que precisa ser feito para reduzir as desigualdades que isso pode trazer.

O professor de economia em Oxford adicionou as preocupações com os impactos econômicos da Covid-19 à agenda de pesquisa, que contava com aspectos sociais e econômicos da automação e inteligência artificial como pontos centrais.

Ele escreveu dois livros: “O futuro das profissões”, de 2015, escrito em parceria com o pai, o advogado Richard Susskind, traduzido pela editora portuguesa Gradiva e “Um mundo sem trabalho”, lançado em janeiro deste ano pela editora Porto Editora, também portuguesa.

O senhor afirma que a perda do trabalho para o avanço tecnológico sempre foi uma preocupação da humanidade, mas que não houve nenhum episódio de desemprego massivo causado pela tecnologia. Devemos parar de nos preocupar?

Dia após dia recebemos notícias de máquinas fazendo atividades antes reservadas aos humanos: diagnósticos médicos, dirigir carros, arquitetar prédios. Não estamos levando a sério as ameaças de um mundo sem trabalho. Não acho que vá acontecer um big bang tecnológico do qual todos vão acordar desempregados. É menos radical do que imagens de robôs tomando todos os empregos, mas não menos significativo em termos de efeitos.

O senhor acredita que a pandemia é um momento de repensar políticas redistributivas de renda consideradas radicais?

Sim. O debate econômico da última década tem sido sobre quão austeros devemos ser, quanto precisamos restringir os gastos. Na pandemia, esse debate saiu pela janela, porque a crise demandou a suspensão dessa razão econômica. E tenho a impressão, e esperança, de que vamos nos perguntar por que a crise anterior à pandemia, de moradia, de pobreza, de desigualdade, também não demandava essa suspensão da razão econômica.

Dia após dia recebemos notícias de máquinas fazendo atividades antes reservadas aos humanos: diagnósticos médicos, dirigir carros, arquitetar prédios. Não estamos levando a sério as ameaças de um mundo sem trabalho. Não acho que vá acontecer um big bang tecnológico do qual todos vão acordar desempregados. É menos radical do que imagens de robôs tomando todos os empregos, mas não menos significativo em termos de efeitos.

As grandes desigualdades só foram reduzidas em desastres, mas o ponto mais preocupante da pandemia são as desigualdades.”

O senhor menciona uma proposta de um “big state”, que inclui aumento de impostos sobre empresas e redistribuição de renda via Estado. O senhor enxerga essa proposta como uma versão atualizada para o século 21 do Estado de bem-estar social do século 20?

O problema econômico fundamental que vamos encarar em um mundo com menos trabalho é o de distribuição e desigualdade. Hoje o mercado de trabalho é a principal forma de distribuição de renda. Para a maior parte das pessoas, o emprego é a principal, se não a única, fonte de renda. Mas esse sistema começou a ruir. O desemprego tecnológico é a versão dessa história na qual algumas pessoas não recebem distribuição alguma.

Como dividir a prosperidade econômica se não podemos confiar no mecanismo tradicional de pagar pessoas por trabalho?

Precisaremos confiar no Estado, no que eu chamo de “big state”. É diferente do estado de bem estar do século 20 por não tentar controlar a produção, mas, sim a distribuição. E as fundações do “big state”, diferentemente do estado de bem estar, não são estão no trabalho. No momento, vivemos em um mundo com menos trabalho — não por causa de robôs, mas pela pandemia e crise econômica. E o que vimos ao redor do mundo são os Estados assumindo um papel bem maior do que pensávamos ser possível.

O senhor coloca a peste e as duas guerras mundiais como pontos na história nos quais a desigualdade diminuiu. O senhor enxerga a pandemia como um momento de redução de desigualdade?

No passado, as grandes desigualdades só foram reduzidas em desastres, mas o ponto mais preocupante da pandemia são as desigualdades. No Reino Unido, os grupos mais impactados pela doença são os mais desfavorecidos economicamente. Empregados de “colarinho azul”, com salários menores, ou precisaram se expor ao vírus ou não puderam trabalhar. A narrativa de que a tecnologia permitiu que muitas pessoas trabalhassem remotamente é essencialmente do “colarinho branco”, de médicos, escritores, advogados, arquitetos.

Depois da pandemia será necessário um grande trabalho para disputar o poder político com as grandes companhias tecnológicas.”

No livro o senhor fala sobre os trabalhos “de colarinho rosa”…

É um termo muito infeliz para capturar a ideia de que os trabalhos menos suscetíveis à automação [enfermeiras, professoras de primário, cabeleireiras, empregadas domésticas, garçonetes] são desproporcionalmente feitos por mulheres.

Considerando o fator da baixa chance de automação nesses trabalhos, o senhor acredita que podem ganhar um novo valor social?

Existe um desencontro entre o valor social do que trabalhadores fazem e o valor que recebem na forma de salários. Os trabalhadores essenciais já eram essenciais havia tempo, não é como se a pandemia os tivesse tornado essenciais. Enfermeiras, assistentes sociais, cuidadoras… O valor social não era refletido nos salários. Não acho que a pandemia necessariamente signifique que essas trabalhadoras serão mais valorizadas, mas trouxe atenção para o problema.

Esses trabalhos envolvem interação humana e isso é difícil de automatizar. O que me preocupa sobre a pandemia é que justamente por causa do caráter da interação que trabalhos assim sofrem grandes impactos. No curto termo, por causa do vírus, a queda da demanda por empregos de interação social é preocupante. No longo-termo, em um mundo com menos trabalho e sem a possibilidade da contribuição social pela via econômica, precisaremos entender conjuntamente quais trabalhos são importantes. Quando esse momento chegar, pode ser que haja uma valorização desses trabalhos.

Existe uma preocupação grande em relação à criação de sistemas de inteligência artificial que sejam tendenciosos e reproduzam preconceitos como sexismo e racismo. Em uma sociedade cada vez mais dependente da IA, os enviesamentos dificultam a transformação social?

A preocupação com concentração de mercado e aumento de lucros por empresas já apareciam no século 20, mas, hoje, estamos cada vez mais preocupados com o poder político das grandes empresas e no impacto delas na liberdade, democracia e justiça social. Vimos isso na pandemia. Privacidade e segurança de dados, como localização de celulares e histórico de gastos cartões de crédito, eram conversas importantes há seis meses e, agora, estão no segundo plano por causa da mentalidade de fazer o que for necessário para superar a crise. Depois da pandemia será necessário um grande trabalho para disputar o poder político com as grandes companhias tecnológicas. Precisamos criar uma instituição análoga às que lidam com monopólios para as big techs, mas formada por filósofos e cientistas políticos, para monitorar as grandes empresas.

O senhor acredita que a automatização de tarefas de rotina incide em alguma parcela social específica?

A visão predominante na economia e na inteligência artificial era de que era necessário que um humano explicasse a uma máquina como performar as tarefas. Mas vemos cada vez mais tarefas que não são de rotina sendo automatizadas porque os sistemas são construídos de formas completamente diferentes do raciocínio humano. E o nível de qualificação que uma tarefa exige para um humano não está tão relacionado com a capacidade de automatização. No mercado de trabalho dos EUA dos anos 1980 em diante se via um crescimento do trabalho altamente qualificado e do trabalho pouco qualificado. O meio do mercado foi capturado pela tecnologia porque as tarefas de rotina estavam​ lá. É uma história de erosão da classe média nas últimas décadas.

“O desafio de um mundo com menos trabalho não é só de como dividir a renda, mas de como dividir significado e propósito quando a fonte tradicional disso não estiver mais disponível”.

A implementação do “big state” exige uma grande mudança política. O senhor acredita que além disso seja necessário repensar o papel social e cultural do trabalho?

Frequentemente é dito que o trabalho não é apenas uma fonte de renda, mas de significado também. E se isso for verdade, o desafio de um mundo com menos trabalho não é só de como dividir a renda, mas de como dividir significado e propósito quando a fonte tradicional disso não estiver mais disponível. Uma das ideias do livro é mostrar que a relação entre trabalho e propósito não é tão evidente quanto pensamos. Hoje muitas pessoas não tem senso de propósito no trabalho. Mas talvez, para algumas pessoas, o trabalho ainda seja importante e elas vão querer continuar a trabalhar. Talvez seja necessário criar trabalhos.

Sete das dez maiores empregadoras do mundo são instituições do Estado, então a ideia de que precisaremos criar trabalhos para as pessoas não é tão distante do que fazemos hoje. É difícil pensar em um mundo no qual o trabalho não tenha a centralidade. Nesse sentido, a pandemia tem sido um experimento interessante. Existe uma discussão acontecendo sobre a melhor forma de aproveitar o ócio. No Reino Unido, tivemos falta de madeira, farinha e plantas. Todos decidiram virar marceneiros, padeiros e jardineiros. Temos uma noção do que é um emprego proveitoso, mas não do que é o desemprego proveitoso. Não sabemos como viver o ócio de forma proveitosa. A pandemia mostrou que isso é um desafio complexo.

Fonte: Folha de S.Paulo

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