Artigo: “Se de tudo fica um pouco, o que ficou da greve?” por Luciana Girelli

Luciana Silvestre Girelli é jornalista. Servidora pública estadual do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural – Incaper.

Integrante da Comissão de Mobilização da Greve dos servidores do Incaper.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
(Carlos Drummond de Andrade)

De repente, várias categorias do funcionalismo público estadual em greve. A cada adesão de mais um órgão da administração indireta, uma comemoração, a sensação de fortalecimento da luta. Greve, atos públicos, caminhadas, panfletagens, piquetes no portão. Se de tudo fica um pouco, o que ficou do processo de greve para os servidores públicos estaduais?
Para além da limitada abertura do processo de negociação com o Governo Estadual sobre os Planos de Cargos e Salários das categorias e de conquistas pontuais do ponto de vista administrativo para alguns órgãos, houve um conjunto de conquistas que não foram palpáveis, mas que, com certeza, só puderam ser sentidas por quem vivenciou esse rico processo. E é justamente sobre elas que eu gostaria de escrever, num pequeno texto autoral – que burla, momentaneamente, a prática jornalística de escrever relatos dos acontecimentos palpáveis.
Se de tudo fica um pouco, dessa greve ficou o fortalecimento da identidade dos servidores públicos estaduais. Desde os aguerridos profissionais do Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema), com seu preto de luto estampado em todas as atividades; aos incansáveis servidores do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), presentes, com seu chapéu de palha, em cada cantinho desse Espírito Santo, do Sul Caparó ao Extremo Norte capixaba; aos servidores do Instituto de Pesos e Medidas (Ipem), inédito para tantos de nós; ao pessoal que finca o pé e diz “Reage Jucees”, da Junta Comercial do Estado do Espírito Santo. Cada um à sua forma e à sua maneira foi à luta, unidos, revigorando a categoria dos servidores públicos estaduais.
Também ficou dessa greve o ensinamento da construção coletiva. Paralisações com mais de 45 dias, com atividades de mobilização, com povo na rua, não se sustenta sem um forte trabalho de base e envolvimento de cada servidor. Desde aquele que faz a lista do ônibus e a contagem das marmitas e dos pães com mortadela; ao que faz a escala dos 30%; ao que “senta na” mesa de negociação com o Governo e batalha pelos anseios de uma categoria inteira. Todos e cada um são partes constitutivas e viscerais do movimento de greve.
Se de tudo fica um pouco, ampliou-se o exercício da democracia interna nos órgãos públicos, ainda tão fortemente arcaicos e autoritariamente hierárquicos. Discutir os problemas que vivenciamos no dia a dia, propor soluções, intervir nos processos de negociação, ampliar o conhecimento dos nossos direitos e também deveres. Exercitamos a nossa participação política, o que é fundamental para qualquer espaço de convivência social, principalmente o espaço de trabalho. Hoje, estamos mais firmes no propósito de não abrir mão de nossos direitos e de lutar sempre por eles.
Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada
(Gonzaguinha)
Por que, então, não ficaria um pouco – ou muito – de criatividade, de rebeldia e de alegria? Sim, a juventude participou e construiu o movimento de greve, vencendo muitos medos e barreiras nos locais de trabalho. Em vários órgãos, houve o questionamento do motivo da participação de novos servidores na greve: “Nem bem entraram no serviço público e já estão em greve?!”. Como se o fato de nosso recente ingresso no serviço público nos desautorizasse a lutar. Participar de uma greve significa exatamente a preocupação com nosso futuro profissional, com melhores condições de trabalho para que possamos prestar o melhor serviço à sociedade capixaba. E não há data de vencimento para que esse processo se inicie. Ele começa desde o primeiro dia de trabalho. Fico muito feliz por ter sido a minha primeira greve – e sei que foi a primeira greve de muitos colegas – e por ela ter sido alegre, animada, organizada, respeitada, responsável, com a cara e as cores da juventude do serviço público!
Por fim, se de tudo fica um pouco, não podemos deixar de lembrar que a solidariedade entre nós e com colegas de outras categorias em greve, foi inesquecível. Caminhar com outras bandeiras, mas que também são nossas como povo brasileiro, nos fortaleceu como servidores públicos e como trabalhadores! A luta pelo meio ambiente, pela educação pública, pela agricultura familiar e reforma agrária tornou nossa greve conhecida e simpática à sociedade.
Se de tudo fica um pouco, porque não ficaria um pouco de mim na greve e um pouco da greve em mim? Após quase dois meses de greve – para muitos de nós – não tenho dúvidas de que voltamos vitoriosos aos nossos postos de trabalho, muito mais qualificados para exercer nossa atividade profissional como servidores públicos que possuem grande responsabilidade social.
Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
(Thiago de Melo)
Paralisar temporariamente os trabalhos nos órgãos em que trabalhamos não significou uma falta de comprometimento de nossa parte. Significou exatamente o compromisso dos servidores com a prestação de um serviço de qualidade à sociedade, o que só se viabiliza com a valorização dos profissionais. E essa valorização só se conquista com luta!
Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo
(Thiago de Melo)
De tudo ficou um pouco. Da nossa organização, da nossa rebeldia, da nossa alegria, da nossa ousadia, da nossa união, da nossa força. Das caminhadas sob o sol, sob a chuva, com a “participação” do Governador e do Chapolin Colorado, do pão com mortadela e do almoço no Cariri, das panfletagens, do adesivo estampado no peito e da fé no coração. E assim, seguiremos em luta até que nossas condições de trabalho e salários sejam dignas – para todos e todas!
Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.
(Thiago de Mello)

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