Artigo: Mais do que transporte público

Os problemas envolvendo a mobilidade urbana, passado o primeiro semestre das gestões municipais pós-eleições ainda permanecem como desafio para os prefeitos do aglomerado urbano da Grande Vitória (ES). Muitas ações poderiam trazer alívio ao desenvolvimento das cidades, tanto no aspecto econômico quanto ambiental, mas essas entram em conflito com interesses grupais, por exemplo, os corredores exclusivos denominados BRT (permanente) ou BRS (flexível) poderiam sair do papel, mas inegavelmente, determinada casta social não consegue se ver dentro de um ônibus, principalmente na logística atual, qual seja, sem prioridade de circulação. Essa mesma casta quando viaja, retorna falando maravilhas do transporte público de Madri, de Londres, de Paris, mas não sabe que nessas cidades o transporte individual tem proibida sua circulação em determinados locais, ou mesmo, paga-se pedágios pesados pelo luxo na circulação em transporte individual no espaço público.

Os engarrafamentos observados na metrópole capixaba, idêntico às outras tantas, aumenta o custo da “produção sacrificada”, ou seja, o que deixou de ser produzido, elevando também os custos da operação do transporte público, além, claro, o ambiental. O empresário do transporte coletivo para assegurar intervalos atrativos ao cidadão cliente se vê obrigado a ampliar sua frota “perdida na imobilidade”. Para manutenção do negócio, o Estado, por sua vez, cumprindo seu papel social entra com subsídios públicos, os quais, sem uma política agressiva de prioridade da circulação de transporte de massas, aqui falamos do ônibus, só aumentará sua participação, retirando certamente verbas de áreas também sociais.

Considerando que os fatores que englobam o transporte coletivo utilizado pelas massas são dinâmicos, assim deveria ser o Estado que deveria, entre tantas ações, estudar, e talvez rever a aplicação da tarifa única. Acesso e desejo em raio de 5 km deveria ter tarifa diferenciada, competitiva com a bicicleta, quiçá, até com os deslocamentos a pé. Não basta criticar as políticas públicas de uso de bicicletas, é preciso aceitar seu uso na compreensão de que os espaços utilizados são públicos, mas também exigir políticas públicas para que o ônibus, por se tratar de transporte de massas, tenha prioridade em sua circulação, comparado ao transporte individual. O planejamento das redes de circulação dos transportes, focados na dinâmica que a área espacial é ser vivo e morfológico, tendo como resultado a conurbação, deve buscar a compactação dos deslocamentos, de forma a se obter redução dos custos operacionais e ambientais, logo, áreas que possibilitassem integração de bairros, oportunizando fusões de linhas deveriam ser declaradas de utilidade pública.

O transporte público bem planejado é pontencializador de desenvolvimento. Áreas com potencial de promover abrigo de comércio variado, com pontos de interesses coletivos localizados em seus arredores devem ter atenção especial nesse planejamento, de forma a garantir que parte significante dos moradores de determinadas áreas tenham seus deslocamentos de trabalho, de escola, de lazer e de consumo compactados. Evitando assim, desperdícios. Ganha o cidadão que não precisa gastar horas em longas distâncias para atingir os polos de interesses de suas necessidades; ganha o empresário com melhora do índice de passageiros por quilômetro (IPK), e ganha o município que passa a concentrar os impostos de bens e serviço produzidos.

Estamos na crise talvez por ausência de criatividade, ou quem sabe, por inexistir inspiração para pensar soluções.

 

Fernando Magno S. Loureiro

  • ricardo haddad

    Excelente reflexão do amigo Fernando Magno a respeito do transporte público . Penso como ele que se o transporte publico tivesse sua importância elevada como já foi feito em dimensões constitucionais teríamos uma qualidade de vida bem melhor. Qualidade técnica o governo tem com a Ceturb GV que apesar de todos o reves do nosso sistema e de nossa crise institucional, tenta através do esforço de seu quadro de funcionários fazer um transporte melhor pra população. Se não atinge totalmente seu objetivo talvez devamos procurar saber o que estão fazendo os outros agentes envolvidos nesse sistema.