Artigo| Ainda estamos à espera de uma vacina para a ignorância

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Por Ethel Maciel*

Respirar ficou pesado. O ar está denso do acúmulo de tantas mortes. É uma tarde sufocante de setembro, na qual muitos que conheço choram e não podem enterrar seus mortos. A pandemia levou 180 dias de nossas vidas e todos os dias de muitas outras vidas.

Seguimos um fluxo de dias e a cada dia um novo e o mesmo desafio. Precisamos sobreviver até a vacina. Em certo sentido, temos uma vantagem histórica enorme: a ciência. No entanto, temos a limitação imposta pela ignorância. A ignorância, como uma peste, que nos sombreou ao longo dos séculos e que pensávamos derrotada pelo iluminismo e os iluministas, parece voltar agora, mais hostil.

A peste da ignorância nos cerca. A ignorância é, por definição, essa atitude do engano quanto à qualidade de nossos conhecimentos. Se não for combatida, a ignorância pode causar mais danos que muitas doenças.

Nessa pandemia, a ignorância, como um vírus mutável e que se renova, encontrou novas formas de se reinventar. Abraçou as incertezas, foi promovendo rachaduras, trincando nossas fortalezas e envenenando o terreno à nossa volta. Medicamentos que não curam e nem tratam são utilizados como mercadoria política em tempos de eleição, transformadas em leis para utilização no serviço público e na justificativa do gasto do dinheiro público. Já as vacinas que são o melhor meio de prevenção comunitária contra doenças, deixadas ao sabor das escolhas individuais. Isso contraria anos de políticas bem sucedidas no Programa Nacional de Imunizações do Brasil. O Programa que é um dos maiores do mundo, ofertando 45 diferentes imunobiológicos para toda a população, de forma gratuita, por meio de uma conquista assegurada pela Constituição Federal.

A ignorância irradia suas sombras espessas, condensadas e ameaçadoras. A peste da ignorância se espalhou como erva daninha indesejada, foi confundindo, disseminando mentiras e angariando seguidores. A cura para a ignorância não é tão rápida e eficaz como para outras pestes infecciosas. Exige de nós uma técnica. Primeiro, o momento parece ser importante. Não procure combater essa peste em qualquer momento, há estações melhores e tempos mais apropriados. Ela parece ficar menos fortalecida em períodos entre eleições, ou entressafras. Segundo, utilize as ferramentas corretas. Uma ferramenta mal empregada pode ajudar a espalhar essa peste ao invés de contê-la. Terceiro: tenha cuidado com as pessoas afetadas por ela. Essa é a parte mais sensível do processo. O mal da ignorância é traiçoeiro, ele se insinua onde não pensamos e brota em terrenos inimagináveis. Mas a peste da ignorância deixa seus rastros. É possível ver por onde passou, a quem acometeu e o tamanho do estrago.

Contudo, seremos nós os únicos responsáveis pelo legado que dará sentido à vida daqui em diante. Para a pandemia da COVID-19 haverá fim. Mas fiquemos atentos: a ignorância que nos ameaça não acabara tão facilmente. Ao longo do tempo, combater a ignorância sempre foi tarefa árdua e laboriosa. Vencer todas as etapas exige método e tenacidade. Sigamos iluminando as trevas da ignorância, expurgando suas raízes e revelando suas incongruências, apenas assim venceremos essa peste reinventada.

* Professora Ethel Leonor Noia Maciel é epidemiologista em doenças infecciosas do Departamento de Enfermagem da Ufes. É uma das responsáveis pelo Laboratório de Epidemiologia do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Ufes.

Artigo publicado originalmente em A Gazeta/ES.

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