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A volta dos que não foram – A história da reabertura após a quarentena que nunca existiu

Por Tadeu Guerzet*

 

O dia é cinco de abril. O Espírito Santo possuía 194 infectados pelo Coronavírus. Todos se apavoraram com o fato de 28 pessoas novas terem sido contaminadas em um único dia.  O governador havia decretado o fechamento do comércio no dia 20 de março com 16 contaminados no ES.

O capixaba, aterrorizado, começa a estocar papel higiênico, temendo, não se sabe ao certo que tipo de crise. Brigas por álcool em gel em filas nas farmácias. A “pandemia” se tornava “pandemônio”.

O dia é 23 de Junho. O Detran funcionando, secretarias escolares retornam as atividade, shoppings abertos, comércio, botecos, feiras livres, praias, tudo liberado.  Sedu chega até anunciar retorno às aulas em julho.

Enquanto isso, já são mais de 100 novos contaminados por dia, mais de 80% da ocupação de leitos. Alguns hospitais, já lotados. Cerca de 50 mortes a cada 24 horas faz com que a taxa de mortalidade atualmente, supere os números de abril. Já são em torno de 1,3 mil novos casos em UM DIA. Só a Praia da Costa, atualmente, possui quatro vezes mais casos do que todo o estado possuía em abril. Estamos chegando a 1490 mortes.

A única explicação a respeito das decisões irracionais do governo estadual, é a pressão da retomada da economia alicerçada em premissas duvidosas. A economia jamais irá retornar normalmente pairando sobre ela a ameaça de um vírus sem vacina, da mesma forma que, segundo relatos de comerciantes, antes mesmo do decreto, a clientela já estava baixa. Visivelmente víamos diariamente comércios fecharem suas portas, a pandemia, acelerou a crise já vivenciada.

O retorno da atividade, lembremos todos, acarreta em custos, não apenas receita! Os impactos de uma alta contaminação hoje, pode prejudicar a economia mais do que um mês de lockdown. Sustentar a manutenção do funcionamento de atividades não essenciais e não econômicas, públicas, em outras palavras, favorece a aceleração da contaminação e prejudicará ainda mais a nossa já fragilizada economia.

Claro que apontar que uma pessoa que vive do seu trabalho deva simplesmente não trabalhar, é um distanciamento da realidade de quem não conhece o funcionamento da sociedade. Por isso, e exatamente por isso, a quarentena deve ser uma POLÍTICA PÚBLICA. Aí entra a capacidade de investimento do governo federal, que deveria estar promovendo medidas e garantindo uma renda básica para esta parcela da sociedade poder ficar “#emcasa”. Isso não sendo feito, a posição dos governadores e prefeitos fica delicada. Isso eu até consigo compreender. Mas onde estão as propostas?

A desoneração bancária de Bolsonaro, reduzirá a arrecadação social sobre o lucro de 20% para 15%, provocaria uma queda de cerca de R$ 4 bilhões na arrecadação. Esse valor, distribuído para 800 mil famílias daria 5 mil reais para cada uma. A título de exemplo do que seria uma medida de política pública de proteção da vida em quarentena. Isso deve ser proposto, não uma mera hashtag #fiqueemcasa.

Mesmo levando isso em consideração, não há argumento nesse mundo que explique o retorno às aulas se não o de que as pessoas que para trabalhar precisam de um lugar para depositar e contaminar seus filhos. O que essas autoridades (federal, estadual, municipal) pensam estar fazendo com nossas vidas em jogo? Vidas importam! Não há economia sem vida!

* presidente do Sindipúblicos